Mostrar mensagens com a etiqueta escolhas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta escolhas. Mostrar todas as mensagens

21 julho, 2011

Arrancar-te



- Sinto que é a última vez…
Ele afagava-lhe o cabelo desarrumado no seu peito e levantava-lhe o queixo. Os olhos enormes cor de avelã revelavam o que nem precisava de dizer:
- Eu também sinto o mesmo. É a ultima vez que te vejo.
- Vou sentir tanto a tua falta – dizia-lhe de olhos embaciados, roçando os lábios molhados no dele – de falar contigo de manhã e ouvir a tua voz estremunhada ao acordar.
- Vou sentir saudades de te abraçar, do teu sorriso, ouvir-te falar sem parar.
- E as nossas gargalhadas? Tu fazes-me rir... Quem é que  vai rir comigo agora?
- Ninguém – dizia-lhe na sua voz melada, agarrando-lhe o rosto, com ambas as mãos,como se de um tesouro se tratasse – Ninguém se pode substituir, e eu nunca te vou deixar.

Abraçaram-se por um tempo indefinido, num aperto tão forte, como se nele fosse possível unir os dois corpos, colá-los de alguma forma, cozer a pele uma à outra . Tornarem-se num só, indivisível, inseparável.
Mas serão sempre  dois corpos, rasgados pelo tempo, pela espera, por escolhas dolorosamente separados. Depois, as suas almas, atiradas para um poço fundo onde ficam encarceradas, emergem, lutando entre a morte e a vida, gritando desesperadas.
A vida agride-os, esfaqueia num golpe hábil profundo, esventrando lentamente, brincando às escondidas com a realidade.
  
- Há tanto de ti em mim, não consigo arrancar-te – repetia, enquanto conduzia, a velocidade excessiva, na direcção contrária.