13 julho, 2011

Rota

Há 11 anos que faço o mesmo percurso, apanho o comboio e troco nas mesmas estações de metro. Ainda assim, em modo de piloto automático, não há uma semana em que não me engane numa qualquer estação de metro. Quando dou conta, estou 2 ou 3 estações à frente. Não porque adormeço, pelo menos, não na maioria das vezes! Mas porque insisto em aproveitar aqueles 45 minutos de trajecto de vida para mim, para ler, beber agua, escrever, ouvir musica, e sim, tudo em simultâneo. Na maioria das vezes consigo fazer estas coisas com sucesso… outras, confesso, o aparato que instalo nas minhas saídas abruptas das carruagens são episódios embaraçosos dos quais saio a pensar “Deus queira que não me vejam mais”. É o livro que cai, a água que se entorna, o lápis que rebola para debaixo do banco, o fio dos phones que fica preso na mala da senhora do lado…

Por mais rotas que existam, por mais vezes que a percorra robotizada, por um ou outro motivo, há alturas em que sinto uma necessidade visceral de fugir da rota habitual. Assim, meio inconsciente, de rompante, mesmo que perdida, sem saber se deslumbrada com a novidade da paisagem, se assustada com o desconhecido.

Sair da rota torna-se tão necessário como respirar…
Quebrar um zumbido que sufoca, arriscar um caminho em contra mão, entrar num cruzamento sem hesitar. Perder-me. Andar à deriva por um tempo. Abandonar-me. Esta é talvez a melhor forma de fugir de uma rota em colisão.

12 julho, 2011

Tempo


O corpo balançava ao som do vento, numa brisa suave matinal. Também os cabelos esvoaçavam, ainda húmidos, colados ao rosto. Ao seu lado um corpo delgado, hirto, olhava o vazio. Os olhares não se cruzaram depois do quente da noite, nem os braços, ou os corpos se abraçaram depois de se vestirem. Nada. Um ar gélido cercava-os, entre os dois uma distância de centímetros intermináveis, separados por uma barreira invisível.
Ele pediu-lhe tempo.
«Quanto?» perguntou.
Ele abanava a cabeça confuso. Não sabia. Não usava relógio, não se recordava sequer em que mês estava, nem do dia. Apenas «Tempo» disse numa voz rouca, cravada de intimidade e agonia.
«Quanto?» voltou a perguntar-lhe sem mover o rosto, pálido, de lábios secos pelo frio. Os olhos ficaram baços. Os dele, ela não sabia. Apenas sentiu o corpo delgado a afastar-se, talvez empurrado pelo vento, pensou por momentos, ou talvez por cobardia.
A voz rouca sumia ao longe «2.000 km de tempo» respondia-lhe.

10 julho, 2011

Conversar


Perdeu-se no meio de uma conversa trivial durante um almoço. As frases começaram a escapar-lhe, primeiro os verbos, depois os adjectivos, aos poucos deixaram de fazer sentido. Seria sobre o trabalho? Ou os saldos das lojas? Ou como a temperatura oscilava indefinida? Perdeu-se e já não se encontrava ali. Os pensamentos voavam-lhe para longe, apenas o corpo permanecia no ritual habitual.
“Pssstt…” - Um rapaz de cabelo despenteado e óculos rectangulares de massa, de onde sobressaiam uns olhos azuis, chamava-na da mesa ao lado. Estava sozinho e pousava ao lado dele um caderno de capa preta, olhava-a como se a conhecesse de algum lugar. Ela reagiu com a estranheza do desconhecido e, ao mesmo tempo, o desejo incontrolável de lhe responder. Perguntou-lhe com o olhar, acompanhado com um ligeiro gesto em direcção ao seu peito soletrando com os lábios “Conheces-me?”. Na mesa ao lado, ele abanou a cabeça enquanto mexia o café, respondendo com a mesma mudez “Isso importa?”. 
Nesse momento ela sentiu-se ainda mais intrigada, a conversa na sua mesa eram palavras soltas que já não ouvia, nem lhe interessavam. Queria ouvir as palavras provenientes da boca daquele estranho que a invadia em silêncio, como se a conhecesse, sentia-se ávida conversar com ele, sem perceber porquê aquela mímica seduziu-a. Fugiu com os olhos por segundos que lhe pareceram eternos até lhe devolver novamente um olhar de esguelha. Só mais um olhar, pensou, que mal tem?
Ele continuava a olha-la sorrindo e os seus lábios moviam-se onde ela lia “queres conversar?”.
“Conversar”, pensou. Ele queria conversar com ela, era a história mais absurda de engate que ela se lembrava. Ainda assim, de sorriso trocista, devolveu-lhe silenciosamente “Sobre o quê?”. Ele respondeu da mesma forma, bem devagar para que ela acompanhasse o que os seus lábios proferiam “sobre sensações, o que sentimos”.
Um estranho numa mesa ao lado, perturbava-lhe a atenção. Deu conta que, de repente, conversava mais com ele do com as amigas na sua mesa, alheias a toda a confusão. Reparou que ansiava conversar com ele sem sequer saber o seu nome, ter ouvido a sua voz. No limite poderiam continuar a trocar diálogos mudos, num código gestual que apenas ambos compreendiam.
Levantou-se determinada, deixou a sua mesa com a desculpa “vou ter com um amigo” e sentou-se na mesa ao lado, à frente dele. No mesmo silêncio, ele estendeu-lhe o livro de capa preta abrindo numa determinada página. Um contorno de um rosto, parecia o seu, mas com os olhos raiados, demasiado raiados, como se estilhaçados em vários pedaços de vidro. Perguntou-lhe, ainda numa voz sumida “São os meus olhos? Porque estão assim?”. A voz dele saiu num volume normal, fazendo-a sentir-se ridícula com o seu sussurro. Uma voz estranhamente agradável, até mesmo familiar “Diz-me tu, porque os teus olhos espelham estilhaços de insatisfação”.
E foi então que começaram a conversar. As palavras jorraram sobre o que cada um sentia da vida, as angústias e incertezas, os medos, as dúvidas.
Não sabe por quanto tempo ficaram ali a conversar, até que a tarde fez-se noite e despediram-se.
Lembrou-se depois que não ficou com o seu contacto, não sabia sequer o seu nome, nem o que fazia. Talvez nunca mais o visse. Ainda assim, conversar com ele foi o melhor do seu dia.

08 julho, 2011

Distância


"E agora?"- pergunta-se - "O que há depois da distância?"
Um muro enorme de cimento baço, imponente.
Um vazio sombrio, um precipício assustador.
Uma escuridão imensa de inexistência, ilusões encaixotadas em prateleiras de uma cave bafienta.
Depois da distância há a necessidade de apagar memórias que carregam proximidade.
Depois da distância? Resta a distância da distância, numa promessa assumida de desamor.

05 julho, 2011

Esquina qualquer


Embateram numa esquina qualquer, numa noite de chuva fria.
Estilhaçaram-se mutuamente nesse dia, num choque abrupto, frontal. 
Primeiro com a força do corpo, depois a violência do olhar. Confusos, respiraram rente à boca. Ofegantes. Atraídos por instantes num apetite voraz.
Baixam-se, para apanhar as folhas que ela deixou cair no chão. E deixaram-se cair também, descontrolados, nos braços um do outro. Primeiro, no piso empedrado da calçada, depois contra a parede suja e gelada. Por um tempo que o relógio não sabe controlar. Indeterminado, carnal.
Ela mordeu os lábios sequiosos. Sôfrego, ele raspou os seus, pelo pescoço dela. E os olhos voltaram a cruzar-se. Fixaram-se, demoradamente. Enfeitiçados. Os braços serpentearam enredados, as mãos despiram prazer. Ali mesmo, extasiados, numa esquina qualquer, amaram-se sem se conhecer.
As bocas mudas, entregaram-se esfomeadas. Uma da outra, em busca de alimento. Desejaram-se despojadas de palavras. Apenas o contacto quente, o tronco dele molhado, contra o peito dela acelerado. Estranhos de um passado inexistente. Quem foram não interessava para nada, o futuro era-lhes indiferente. Entregaram-se impunemente. Não sabem quanto tempo depois largaram os corpos suados, viciados numa fome incerta.
Dobraram a esquina e separados.
A noite era fria. A rua estava deserta.

04 julho, 2011

Coragem


Assim é a vida, um oceano  imenso onde podemos navegar, mas também afundar.
Reside em nós a capacidade de agir. A vontade, a resistência, a coragem. Sim, acho que é isso - coragem- ou ficaremos para sempre numa pequena ilha deserta, isolados em alto mar.
Para ir mais longe, alcançar um sonho, ser feliz,... para tudo é preciso lançar-se ao mar com coragem. Sem amarras ou âncoras. Largar o colete salva-vidas, tirar os olhos das margens e remar em frente. Bracejar, se cairmos à água, sem perder o fôlego.
A costa vai ficando minúscula ao nossos olhos, perdidos naquele azul imenso. Não se distingue o céu do mar. Não há linha do horizonte, não há terra. Há um medo que apodera-se de nós, indefesos, gelados «era tão mais fácil voltar para trás, percorrer o mesmo caminho... » ainda ousamos pensar.
O sonho ganha, neste preciso momento, viril, empurrado de coragem. A ânsia de alcançar move-nos, sedentos de aventura, sem medo deste oceano fascinante onde mergulhámos sem hesitar.

É preciso ter coragem para arriscar ir em frente e não olhar para trás, e fôlego em cada desilusão para não desistir.

01 julho, 2011

Fresta



Numa sexta-feira de Janeiro, Sofia procurou um álbum antigo de Cat Stevens. Colocou “Wild World” a tocar baixinho, como um calmante, acompanhado de chá de tília. Preparava-se para ler espreguiçada no seu velho sofá de veludo castanho, junto à lareira, quando a campainha estridente irrompeu do escuro do corredor. Pensou que fosse Rita, como era seu hábito esquecer-se das chaves de casa. Levantou-se, a arrastar o corpo e a resmungar sozinha, abrindo a porta de rompante sem perguntar.
Do outro lado, um vulto alto abalroou inesperadamente a porta, como se lhe fosse saquear a alma. Por instinto, tentou fechá-la de imediato, assustada. Debateu-se contra o pé dele que a impedia de fechar o trinco, empurrando-a com o seu corpo.
- Olá! – Soprou por entre a nesga da porta - Só vim dizer “Olá”
Renitente, Sofia cedeu abrir a porta devagar. Levantava o sobrolho, mordia os lábios trémulos e abanava a cabeça confusa. Engolia em seco, e os seus olhos azuis, outrora transparentes, estavam agora embaciados em lágrimas que emergiam descontroladas.
- Olá? ... Olá? – Pestanejava repetidamente lutando por travar as lágrimas mais teimosas.
- Olá… - Gaguejou olhando-a de cima a baixo deslumbrado - Sim, acho que as conversas começam assim – E avançou na sua direcção inclinando-se para a beijar na cara. 
Sofia afastou-o com as mãos bruscamente.
- Nem tentes dar-me um beijo na cara… - Gritou voltando-lhe as costas – nem sequer penses nisso, ouviste? Um beijo na cara? …- Caminhava irritada em direcção à porta.
Pedro agarrou-se desamparado ao corrimão de pedra fria, quase caindo pelas escadas. Logo que conseguiu equilibrar-se, puxou-lhe o braço obrigando-a a voltar-se para trás.
- Espera! Nada de beijos. Tudo bem… – Um sorriso rasgava-se nos seus lábios, esforçados por manter um ar sério - Só “olá”, está bem assim?
(...)
Há instantes em que o tempo pára como por magia, como se abrisse uma fresta onde espreitamos e, admirados, vemos o que até então era invisível. Eles sentiram estar a olhar pela mesma fresta de tempo. E num monólogo interior questionavam-se se deviam parar.
(...)
Pisar a linha ténue, quase invisível, entre voltar atrás e começar de novo. E é nessa linha que pode estar o ponto crítico da vida. Recomeçar não significa voltar atrás. E por vezes voltar atrás não significa que se comece de novo, há uma probabilidade imensa de repetir os mesmos erros, as mesmas tentações. 

de uma espécie de conto meu "Fresta no Tempo"