20 julho, 2011

O Amor anda à deriva





«O Amor anda à deriva pelos canais da Bella Città!» 
Recebi hoje numa daquelas propostas de descontos online que estão agora na moda. 
Voltei a ler incrédula:

«O Amor anda à deriva pelos canais da Bella Città!» ... 
Não consegui sentir pena dele, confesso. Afinal, poderia andar à deriva por tantos outros locais mais... banais. Diria mesmo que abandonado num lago lamacento à beira de um banco tosco de jardim, na espuma acastanhada da rebentação das ondas numa praia deserta, num qualquer riacho que percorre uma montanha esquecida... Mas não, ele, refiro-me ao Amor, anda à deriva por locais mais fashion, cheios de glamour. Mais concretamente anda a deambular pelos canais de Veneza. Acredito que se desloca de Gôndola e deve ouvir a melodia dos violinos soprar-lhe aos ouvidos enquanto distribui paixão, pelas suas musas, em divinas serenatas. 

Abri a "proposta", frustrada, achando indecente fazerem inveja a uma comum mortal como eu, para logo a seguir me deparar com a frase: 
«Dê-lhe a mão 
Eu dou, eu dou! Gritei logo para o ecrã. Dou a mão, o braço, as pernas, os pés... É só ele querer levar-me para lá! 
E ainda continuou com a provocação: 
«O Amor anda à solta pelos canais de Veneza. Reacenda paixões e reencontre sentimentos esquecidos

Pois bem, Amor, eu estou aqui de braços abertos pronta para te salvar, sou boa nadadora se a Gôndola se virar e, estejam os sentimentos esquecidos ou não, eu reacendo as paixões que quiseres ao teu lado nessa Bella Cittá. Como diria o outro ... Choose ME! 

(E pronto, isto foi um desabafo sobre as provocações que se recebe por e-mail nos dias que correm...)

19 julho, 2011

Dias vazios


Há dias em que vagueio perdida numa espécie de sonambulismo. Como se tirasse férias de mim. Perco-me nas horas, os minutos não existem, nem sei em que dia estou. Perco-me nas conversas que me rodeiam, como ecos que circulam no ar, numa qualquer língua estrangeira.
Perco-me da gente, vultos que passam por mim em corredores escuros, chamam o meu nome e perseguem o meu andar. Caminho a direito por ruas tortas, choco com paredes, tropeço na calçada, arrasto o corpo pesado e dormente sem destino, nem sequer penso onde ou quando vou parar.
Há dias vazios, desprovidos de vontade, esburacados. Dias cansados, esgotados. Que apetece enfiar numa garrafa e atirar ao mar. Desfazer-me deles, de qualquer jeito. Esquece-los, apaga-los. Rebobinar.
Viver todos os dias cansa. Por vezes cansa. O sono poupa-nos um pouco, mas é curto. Espera-nos sempre o acordar. O repicar constante do relógio para mais um dia, e depois outro, e a seguir outro.  Um tique-taque tique-taque infernal. Repetitivo, insistente.
Abro os olhos e suspiro. Sei que há tanto para descobrir lá fora, para sentir e amar. Sim, sei que há tanto de mim nessa manhã que me espera, num simples gesto que me aguarda, na surpresa de um breve olhar.
Mas naquele preciso instante, há o deserto do silêncio, uma estrada imensa que vislumbro cá dentro, sem paixão para a atravessar.

Gelado de Morango


Sabia a gelado de morango, por isso, enquanto o acompanhava pelo corredor, o frio descia-lhe pela garganta e provocava-lhe um arrepio. 
Sim, era porque o olhar dele sabia a gelado que tremia quando a olhava nos olhos de repente e dizia um "bom dia" subtil. Rouco, Envergonhado. O dela embaraçado, ajeitava os óculos e respondia num sussurro inaudível. Corava, da mesma cor do gelado, e ele sorria sem perceber. 
Depois sentava-se à sua frente, paciente, e derretiam fascinados os seus olhos azuis marinho, de sabor indefinido.   
- O que temos para hoje Sofia? - perguntava abrindo a agenda por cima da secretária.
- Um almoço com a Dra Rita -  respondia engolindo uma colherada demasiado fria. 
Sabia a gelado de morango, doce, irresistível, mas todos os dias saboreava apenas os pingos que dele escorria.

18 julho, 2011

Beijam-se



Os olhos encontram-se numa praia qualquer junto a um rochedo.
Beijam-se num choque violento, invulgar, que transpõe a retina. A visão fica turva e tudo à volta desaparece numa espécie de tontura. Perde-se a direcção. Por magnetismo os corpos aproximam-se lentamente, num galopar interior impaciente. A pulsação acelera e os rostos debatem-se de dúvidas e hesitação. Frente a frente, os lábios, a milímetros, anseiam tocar-se. Anseiam mas resistem. Trai-os a respiração quente que os invade como uma brisa de desejo. A milímetros, a respiração dele desliza, percorre-lhe o pescoço, os lábios roçam ao de leve como veludo. «Um golpe baixo» ela rende-se envenenada. Os lábios escorregam quentes, húmidos. Também húmida é a areia da praia onde os corpos se entregaram desamparados sem notar. Ardem, descontrolados, flamejam junto ao mar.
A respiração sobe devagar, lambe-lhe o pescoço impunemente. Sente-lhe o peito firme, apertando de encontro ao seu. Estremece e o coração salta-lhe desenfreado. Os lábios dele continuam a percorre-la rente ao queixo, contornam-o subtilmente. A milímetros respiram hesitação, mas estão já embriagados da sede de se violarem mutuamente. Primeiro raspam-se, roçam para sentirem os contornos, o volume, a forma. Ela desenha-lhe a boca com a ponta da língua, trinca-lhe ao de leve o lábio e depois saboreia-o. Invade-lhe a boca sem permissão.
Beijam-se as línguas, sedentas, numa dança ritmada. Mistura-se a saliva, os odores das peles.
Beijam-se as mãos pelos corpos inebriados de prazer. Ondulam numa melodia mágica de sons e sabores. Beijam-se os braços, o peito, as costas, as pernas. A areia mistura-se, entranha-se na transpiração. Beijam-se intensamente, numa entrega carnal, como se não houvesse mais nada, mais ninguém. Beijam-se sofregamente, na violência do tempo que urge, finito, como se não houvesse amanhã.

15 julho, 2011

Boleia de um fantasma


Ali parada, no meio da estrada deserta, pede boleia a um fantasma que passa.
Agita as mãos no ar, faminta de um abraço apertado, de um beijo molhado que lhe percorra o pescoço e preencha a alma.. Sente-se abandonada, perdida.
Agita as mãos para que ele a veja bem, ele conhece-lhe os olhos, a boca, o cheiro, o contorno do corpo.
Ela não o vê, sabe que ele não tem rosto, mas presente-o através do vento que lhe ondula o cabelo. Ele passa de mansinho quase sem ela notar. Parece que ouve a sua voz grave sussurrar-lhe palavras doces ao ouvido. Alimenta-se delas e acalma-se aos poucos, descansa os braços, erguidos no ar.
Espera. Espera porque sabe que ele vai novamente passar. Às vezes pensa ouvir ao longe uma melodia estranha de um berimbau, outras um batuque ritmado de djembés, sons dele, galopam a alma que vagueia confusa num deserto imenso de incompreensão.
Ele passa, sem hora marcada, e leva a sua alma.
Deixa o corpo extasiado na berma da estrada, deixa o rosto ausente de expressão.

13 julho, 2011

Rota

Há 11 anos que faço o mesmo percurso, apanho o comboio e troco nas mesmas estações de metro. Ainda assim, em modo de piloto automático, não há uma semana em que não me engane numa qualquer estação de metro. Quando dou conta, estou 2 ou 3 estações à frente. Não porque adormeço, pelo menos, não na maioria das vezes! Mas porque insisto em aproveitar aqueles 45 minutos de trajecto de vida para mim, para ler, beber agua, escrever, ouvir musica, e sim, tudo em simultâneo. Na maioria das vezes consigo fazer estas coisas com sucesso… outras, confesso, o aparato que instalo nas minhas saídas abruptas das carruagens são episódios embaraçosos dos quais saio a pensar “Deus queira que não me vejam mais”. É o livro que cai, a água que se entorna, o lápis que rebola para debaixo do banco, o fio dos phones que fica preso na mala da senhora do lado…

Por mais rotas que existam, por mais vezes que a percorra robotizada, por um ou outro motivo, há alturas em que sinto uma necessidade visceral de fugir da rota habitual. Assim, meio inconsciente, de rompante, mesmo que perdida, sem saber se deslumbrada com a novidade da paisagem, se assustada com o desconhecido.

Sair da rota torna-se tão necessário como respirar…
Quebrar um zumbido que sufoca, arriscar um caminho em contra mão, entrar num cruzamento sem hesitar. Perder-me. Andar à deriva por um tempo. Abandonar-me. Esta é talvez a melhor forma de fugir de uma rota em colisão.

12 julho, 2011

Tempo


O corpo balançava ao som do vento, numa brisa suave matinal. Também os cabelos esvoaçavam, ainda húmidos, colados ao rosto. Ao seu lado um corpo delgado, hirto, olhava o vazio. Os olhares não se cruzaram depois do quente da noite, nem os braços, ou os corpos se abraçaram depois de se vestirem. Nada. Um ar gélido cercava-os, entre os dois uma distância de centímetros intermináveis, separados por uma barreira invisível.
Ele pediu-lhe tempo.
«Quanto?» perguntou.
Ele abanava a cabeça confuso. Não sabia. Não usava relógio, não se recordava sequer em que mês estava, nem do dia. Apenas «Tempo» disse numa voz rouca, cravada de intimidade e agonia.
«Quanto?» voltou a perguntar-lhe sem mover o rosto, pálido, de lábios secos pelo frio. Os olhos ficaram baços. Os dele, ela não sabia. Apenas sentiu o corpo delgado a afastar-se, talvez empurrado pelo vento, pensou por momentos, ou talvez por cobardia.
A voz rouca sumia ao longe «2.000 km de tempo» respondia-lhe.