- O que vale um beijo?
Perguntou um ser ignorante ao maior sábio do mundo. E o sábio ficou abalado, confuso, as suas mãos tremiam…
Disse-lhe a definição de beijo, todos os tipos de beijos catalogados, todos os sabores e feitios. Explicou-lhe os efeitos que provoca, o aumento das pulsações cardíacas de 60 para 130 por minuto, que queima 15 calorias, os 30 músculos faciais que activa. Explicou-lhe tudo. Ou quase tudo. Mas não lhe deu a resposta que ele pedia:
- O que vale um beijo?
Intrigado, o sábio procurou em todas as enciclopédias do mundo, nas várias línguas, nos antepassados manuscritos… levou anos de pesquisa, até que respondeu humildemente ao ignorante que não sabia.
Então o ignorante sentou-se junto dele e contou-lhe a sua história.
Um dia beijou uma mulher que se cruzou com ele na esquina. Nem reparou bem no seu corpo ou rosto, os olhos chocaram de frente, foi atraído pela sua respiração e invadido pelo seu perfume. Assim, inesperadamente, chocaram um no outro e ele e sentiu uma vontade louca, violenta, poderosa, de lhe segurar a cintura e a beijar naquele mesmo instante. Apenas isso lhe passou a voar, por segundos, na cabeça.
Como era uma pessoa sem grande capacidade de raciocínio, deixou-se levar pelo instinto. Agarrou-a com a mão esquerda contra o seu tronco e com a outra mão afagou-lhe o cabelo, beijando-a de seguida.
O sábio olhava-o espantado, sem conseguir perceber uma palavra do que ele lhe dizia. Ainda assim perguntou curioso «E depois?».
O ignorante disse-lhe que foi um beijo demorado, doce, molhado. Sentiu-lhe todo o corpo, e entregou o dele também, numa nudez guiada pelos lábios e a língua. «Sim, sim, mas e depois?» repetia o sábio já irritado.
- Depois, sorrimos e cada um seguiu o seu caminho.
O sábio ficou perplexo, agitado, perguntou-lhe se não tinha ficado com o contacto dela, se não a tinha seguido. E afinal, repetia o sábio, o que lhe valeu aquele beijo?
O ignorante encolheu os ombros. Era mesmo isso que ele não sabia.
«Nunca é agora entre nós, é sempre até Domingo, até sexta, até terça, até ao próximo mês, até para o ano, mas evitamos cuidadosamente enfrentar-nos, temos medo uns dos outros, o medo do que sentimos uns pelos outros, medo de dizer Gosto de ti.» António Lobo Antunes
28 julho, 2011
Cargas e Descargas
Descarrego então aqui o meu corpo exausto e a cabeça em maresia.
Hoje não me apetece levar nada para casa. Apenas abandonar-me ao relento, ouvir música e ler poesia. Adormecer com a lua por cima e as ondas a conversarem baixinho, cantam-me ao ouvido.
As estrelas, lá bem no alto, vão fazendo comigo jogos de ilusionismo, mágicas, misteriosas, procuro nelas um caminho.
Não encontro. Ainda não, hoje. Mas não desisto de descarregar aqui de vez em quando.
Talvez o camião do destino me carregue, e leve para algum lugar, um dia.
26 julho, 2011
Palavras que brincam
Há palavras que brincam connosco no escuro. Seduzem-nos na ilusão de que são muito mais do que isso - meras palavras escritas a azul num pedaço de papel. Envolvem-nos e sugam-nos. Alimentam-nos o espírito.
Há palavras mágicas, carentes, que nos despem a alma. Aparecem de repente, assim do recanto mais inesperado do mundo e, sem darmos conta, preenchem um vazio que nem tínhamos notado existir. Um buraco profundo.
Palavras intensas que nos amparam num momento confuso, pegam-nos ao colo e sussurram fantasias ao ouvido. Por vezes inquietam-nos, ou comovem. E quase esquecemos que são letras que se juntam em frases premeditadas, beijam-nos a face, os lábios, percorrem-nos sem sentido.
São palavras, que bebemos sequiosos de que se transformem em muito mais, que tomem forma, acção, que se concretizem. Para depois vermos que não existe mais nada, voaram ao acaso para o nosso lado, dormiram na nossa almofada, partilharam o nosso corpo estilhaçado, abraçaram-nos e numa espécie de concha formaram um abrigo.
Há palavras que brincam connosco no escuro. Escondem-se e depois aparecem de repente a meio da noite. Assustam-nos quando se apoderam de nós a cada minuto do dia. Sentimos medo, pânico, de nos apaixonarmos por elas como por um verdadeiro desconhecido.
Palavras, repetimos resignados, são apenas palavras que amamos. Mas seria tão bom que fossem muito mais do que isso.
Amanhã
Hoje partiu uma pessoa querida. Partiu assim sem avisar, sem se despedir. Partiu deste mundo, para outra vida. Um vida só dele, distante. Nós vamos ficando por cá, contorcidos por dentro, a chorar.
Ficamos naquela redoma gigante, absortos pela ignorância da nossa curta existência, que somos finitos, que a vida corre rápido e amanhã o coração pode deixar de bater, podemos já não respirar.
Morremos a cada dia que pensamos "amanhã é outro dia", e adiamos um sonho por cumprir, cada desejo por realizar.Morremos, lentamente, sem percebermos, sempre que não dizemos as palavras que nos atravessam a garganta e sufocam a alma inquieta, sempre que não vivemos, não arriscamos.
Ao adiar morremos, sempre, sem notar. Numa negligência absurda de sentidos e emoções. De tudo quando deixamos por satisfazer, por conhecer ou por terminar.
Abraços, conversas, beijos, gargalhadas, até pormenores insignificantes mas para nós importantes, um olhar meigo, uma palavra certa, fogem-nos num comodismo ambulante, o estigma que somos eternos e que tudo pode sempre ficar para depois...
Amanhã é outro dia, sem dúvida. Mas pode já não ser o nosso dia.
Hoje é tudo o que temos, para viver intensamente, fazer o impossível, derrubar paredes, vencer o protocolar. Entregarmos-nos sem medo, de peito aberto, virgem de receios, dúvidas e hesitações. Livre de anseios.
Amanhã? Do amanhã nada sabemos. Podemos ficar sentados à espera. Poderá ser tarde demais.
25 julho, 2011
Do rés-do-chão ao 7º piso
Voltou atrás. Voltou porque se esqueceu da carteira em casa. Estava atrasado, estacionou apressado na garagem, como sempre fazia. Entrou no elevador, marcou o 8º para logo a seguir parar no rés-do-chão. Resmungou um som inaudível, numa expressão facial irritada que não pôde evitar. A porta abriu-se e a expressão dele mudou quando ela entrou.
De óculos escuros e lábios carnudos vermelhos, ela proferiu um «Bom dia»na sua voz enigmática. Embaraçado, perguntou-lhe o andar. Perguntou por perguntar, porque ele já sabia. «7º» respondeu-lhe, deslizando os óculos pelo cabelo. Fixaram-no nesse momento, os olhos castanhos-claros, delineados com um traço preto fino e pestanas alongadas. De tal forma penetraram-no que, por segundos, não teve reacção. «7º» voltou a repetir, ele estremeceu de repente e carregou no botão.
O elevador subiu e com ele o perfume doce que ela emanava. A um metro de distância, frente a frente, fugiram com o olhar inseguro. Ela para o espelho que acompanhava a parede do elevador, ele para o soalho escuro. Preparava-se para dizer algo protocolar, talvez falar do tempo ou de uma notícia do dia, quando um solavanco arrebatou o seu corpo para a frente num embate imprevisto. Os óculos dela caíram para o chão e ambos baixaram-se instintivamente. Baixaram-se e inevitavelmente as suas respirações rasparam-se, sentiram-se, misturaram-se. Um ar quente que enlouquecia, um perfume que libertava fantasia. Voltaram a subir, os corpos, e perceberam que estavam parados. No espaço, no tempo, nos segundos de um dia, o elevador não subia nem descia.
Carregaram nos botões todos, para descer, para subir, no alarme, mas nada dava sinal de vida, não se ouvia qualquer campainha. Também o telemóvel não tinha rede, nada funcionava, numa completa letargia. Estavam fechados, presos, num cubículo isolado do mundo, como se morressem e renascessem um no outro por magia.
Ela pousou a mala no chão encolhendo os ombros. «Estamos presos» disse-lhe despindo o casaco bege, deixando a descoberto os ombros finos. Ele percorria-lhe os gestos estranhamente agitado. O vestido de um tecido acetinado em tons rosa pálido, delineava-lhe o corpo perfeito «demasiado perfeito» pensava enquanto a percorria, parando no decote, com alguns botões por abotoar, mostrava atrevidamente o peito saliente, onde ele se perdeu a olhar.
«Sim, parece que estamos» respondeu-lhe ainda rouco.
As suas mãos transpiravam e o ar tornou-se de repente quente, um ardor que não sabia bem de onde vinha. Atirou também para o chão o casaco do fato, abriu o nó da gravata e desapertou o colarinho. E naquele instante demente, viu através do espelho as costas dela, o decote em V pronunciado mostrava aquilo que ela não trazia vestido. O sangue disparou a bombear-lhe o peito acelerado, enquanto ela olhava-o inocentemente, talvez mesmo impaciente. Nunca o tinha olhado daquela forma furtiva, de cima a baixo, como se esperasse algo mais do que dizia. «Então…esperamos?» perguntou na sua voz acetinada, e o tom sensual levou-o novamente para o seu vestido, por cima do joelho, de onde saiam as pernas longas e esguias, que terminavam num salto alto fino.
«Agora… não sei…» respondeu-lhe com a garganta seca e com a ânsia súbita de a possuir naquele mesmo instante. Matar ali aquela sede que o sufocava simultaneamente de desejo e agonia.
O espaço tornava-se cada vez mais apertado, ou eram os corpos que se aproximavam inconscientes. Os olhos não se descolavam, fundiam-se as retinas, numa amálgama desfocada de sentido. Perderam-se as vozes, perdeu-se o controlo, num assalto a que ambos se permitiram. Ele segurou-lhe o pescoço por baixo dos cabelos longos ondulados, ela puxou-lhe para cima a camisa. As unhas percorreram-lhe suavemente as costas suadas e o pudor era agora o seu inimigo vencido. As bocas já respiravam ofegantes, entregaram-se sequiosas as línguas. Os corpos ondulavam suados contra a parede, um contra o outro, de tal forma ritmada como se ele já a possuísse por entre a roupa, sentia-lhe o peito arrepiado por debaixo do vestido, saboreava-lhe na pele o perfume. Deslizou a mão pela perna, contornando a coxa e subindo o vestido até à cintura. Ela desapertava-lhe o cinto, enquanto recostava o pescoço para que ele a percorresse, com os lábios, faminto.
Num solavanco o mundo parou de girar e perceberam que o elevador começou a andar. E nesse instante sentiram o verdadeiro perigo. Primeiro desceram até à garagem sem parar, depois foi novamente subindo. Os dois corpos atirados para trás violentamente, compuseram as roupas amarrotadas, atordoados com o sucedido. O salvamento era agora, por ironia, um castigo. Inevitável e cruel, como o destino dos dois.
Parou no 7º piso e ela não olhou para trás, apenas tocou-lhe ao de leve com a mão, onde uma aliança barrava-lhe o caminho. Ele segurou-a por segundos dolorosos, como se perdesse parte de si, depois olhou a sua própria mão que a segurava, onde uma aliança como amarra, tinha o mesmo brilho.
22 julho, 2011
Tela mágica
No seu planeta distante, via-o passar, na tela mágica, na sua camioneta velha.
O braço de fora da janela, bronzeado e musculado deliciavam os seus olhos que vagueavam fantasias. Depois o olhar descontraído, parecia que assobiava uma qualquer música enquanto conduzia. A sua vida era aquela estrada, a camioneta velha onde encontrava abrigo. Ela dele não sabia mais nada, mas estava fascinada com este desconhecido.
Olhava-o com atenção e, por vezes, quase jurava que ele também a via, esboçava um sorriso rasgado e parece que lia nos seus lábios formar-se a frase "Bom dia minha doce companheira".
Logo sorria, mesmo sabendo que ele não a estava a ver, sorria de alegria, do aconchego que estas palavras lhe davam, enfeitiçavam o resto do seu dia. Então contava-lhe as suas histórias, o que pensava, sonhava e sentia. Esbracejava, ria, derramava lágrimas. Sussurrava-lhe docemente, como se fosse a estação de radio que ele ouvia.
Recostava-se depois na sua casa de chão, questionando se algum dia os seus mundos se poderão cruzar. Se ele conseguiria entrar no seu espaço e partilhar aquele pedaço de relva macia onde ela dormia, abraçar o seu vento que roçava nas árvores sem perigo, sem pressas, sem horas. Abraça-la a ela, em sintonia. Compreende-la, aceitar o seu planeta distante, uma alienígena esverdeada, um mutante... Será que ele a queria?
Por enquanto ele era apenas uma tela mágica, com um sorriso. A frase doce pela manhã que a acarinhava, um delicioso desconhecido.
21 julho, 2011
Arrancar-te
- Sinto que é a última vez…
Ele afagava-lhe o cabelo desarrumado no seu peito e levantava-lhe o queixo. Os olhos enormes cor de avelã revelavam o que nem precisava de dizer:
- Eu também sinto o mesmo. É a ultima vez que te vejo.
- Vou sentir tanto a tua falta – dizia-lhe de olhos embaciados, roçando os lábios molhados no dele – de falar contigo de manhã e ouvir a tua voz estremunhada ao acordar.
- Vou sentir saudades de te abraçar, do teu sorriso, ouvir-te falar sem parar.
- E as nossas gargalhadas? Tu fazes-me rir... Quem é que vai rir comigo agora?
- Ninguém – dizia-lhe na sua voz melada, agarrando-lhe o rosto, com ambas as mãos,como se de um tesouro se tratasse – Ninguém se pode substituir, e eu nunca te vou deixar.
Abraçaram-se por um tempo indefinido, num aperto tão forte, como se nele fosse possível unir os dois corpos, colá-los de alguma forma, cozer a pele uma à outra . Tornarem-se num só, indivisível, inseparável.
Mas serão sempre dois corpos, rasgados pelo tempo, pela espera, por escolhas dolorosamente separados. Depois, as suas almas, atiradas para um poço fundo onde ficam encarceradas, emergem, lutando entre a morte e a vida, gritando desesperadas.
A vida agride-os, esfaqueia num golpe hábil profundo, esventrando lentamente, brincando às escondidas com a realidade.
- Há tanto de ti em mim, não consigo arrancar-te – repetia, enquanto conduzia, a velocidade excessiva, na direcção contrária.
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