08 agosto, 2011

Destino

“sometimes the things we can’t change, end up changing us”. The Air I Breath

Vi o filme "The Air I Breath" em 2008 e hoje lembrei-me dele. Ou lembrei-me desta música, não sei. Foi uma das hipóteses. Lembrei-me e não descansei enquanto não encontrei e ouvi a música.
A história do filme é apresentada em forma de mosaico e assenta num antigo provérbio chinês que divide a vida em 4 pilares : Felicidade, Prazer, Tristeza e Amor
É um filme sobre o Destino, onde as emoções colidem e explodem contraditórias em estados de doce-tristeza ou de trágica-felicidade. No destino de cada um pode estar a peça que falta do puzzle do outro. 
Faz-nos questionar se de facto há um destino na nossa vida e qual a força que ele tem em nós, na capacidade da nossa "fúria" quando, por vezes, queremos mudá-lo. 
As músicas que estão a tocar também são do filme, se desligarem o mixpod (eu não consegui desligar o autoplay, pffff...sorry), podem ouvir a música que mais gostei e que me trouxe hoje aqui. Não sei se por destino. Apeteceu-me.

Imaginem


Este é  meu cartão de cidadão, passe social, carta de condução, matrícula do carro.
Não me peçam outro documento.

"Eu gosto do impossível, tenho medo do provável, dou risada do ridículo e choro porque tenho vontade, mas nem sempre tenho motivo.
Tenho um sorriso confiante que as vezes não demonstra o tanto de insegurança por trás dele.
Sou inconstante e talvez imprevisível.
Não gosto de rotina. Eu amo de verdade aqueles para quem eu digo isso, e me irrito de forma inexplicável quando não acreditam nas minhas palavras.
Nem sempre coloco em prática aquilo que eu julgo certo.
São poucas as pessoas para quem eu me explico..." Bob Marley

07 agosto, 2011

Instante descalço


«Não, não preciso de mais nada» dizia-lhe sorrindo «Só preciso de ti »
E era tudo quanto ela queria ouvir da sua boca, como um beijo que dança ao som de uma melodia triste.
Era tudo quanto ela queria acreditar, e por isso sorria. Um sorriso também triste, silencioso, descalço.
Naqueles breves segundos era tudo quanto a prendia à vida. Não queria pensar no depois. Estava ali, mesmo à sua frente, "o" instante mágico, avassalador. De hesitações e contradições, engolidas por uma amálgama de emoções. Era o tudo ou o nada, não se pode morrer para viver outra vez. O chão tremia por baixo dos pés descalços, tremia também o corpo de impotência e ardor. Entregam-se os braços desamparados e as bocas sequiosas debatem-se em areias movediças de desejo e pavor. Queima-a a paixão, por não ter limites ou controlo. Foge-lhe por entre as mãos o coração, também descalço de reacção ou consolo.
Sempre foi tudo o que ela queria e sonhava. Ele, o "instante", mesmo que vadio, descalço de amor.

04 agosto, 2011

Memórias inventadas


«nós andamos constantemente a alterar os factos, a reescrever a história, para tornar as coisas mais fáceis, a fazê-las encaixar na nossa versão preferida dos acontecimentos. Fazemo-lo automaticamente. Inventamos memórias. Sem pensar. Se dissermos para connosco com  frequência suficiente que certa coisa aconteceu, começamos a acreditar nela e então somos de facto capazes de recordar.»
in Antes de Adormecer

E é assim que tenho saudades tuas. De ti. De mim. Dos momento irreais que passámos juntos. Dos beijos molhados, precipitados de loucura, também dos calmos ao fim do dia. Dos abraços apertados contra o peito, do sussurrar no ouvido coisas descabidas. De dançar descalça contigo, ouvir-te tocar um ritmo tranquilo. É assim, nesta memória inventada, que tenho saudades tuas.

03 agosto, 2011

Caminho


- Psssttt onde vais? - perguntou-lhe o vento baixinho.
- Vou onde me levarem os meus pés. Sigo o caminho. O importante é seguir, sem parar.

A vida é essa rota que perseguimos, sem saber muito bem qual o destino. Um lugar no mapa? Uma casa? Uma profissão? Um marido? Filhos? Será isso a que chamamos "caminhos"? Escolhas, decisões, ilusões, desilusões. Sim, acho que isso são as pedras que vamos encontrando pelo caminho, por vezes tropeçando, caindo, para nos levantarmos depois. E continuar em frente, mesmo que lá ao fundo se vislumbre uma curva apertada, mesmo que o nevoeiro nos ofusque a visão e temos de seguir apenas os sentidos, caminhar por pura intuição. Mas seguimos, não paramos. Por vezes andamos mais devagar, arrastamos-nos, empurrados se for preciso, quando o cansaço toma conta do nosso corpo e as pernas tremem exaustas, como se pendessem à beira de um precipício. Chegamos a pensar que vamos desistir, que ficamos por ali na beira da estrada, à espera que alguém nos leve, nos assalte o corpo e alma, pelo seu caminho. Puro engano... São os nossos pés, por isso avançamos, destemidos.
Eu avanço sempre, mesmo que tenha de voltar atrás, recomeçar de novo por outro trilho... vou onde os meus  pés me levarem, por instinto, sigo o meu caminho.

E estou de Fériassss! Para os meus amigos daqui deixo um cheiro das minhas férias no outro lugar onde vou voltar a escrever alguns episódios mais divertidos. Os outros textos, os sonhos, os vôos, ficarão por aqui mesmo, e os que embarcaram comigo aqui serão sempre bem-vindos!

01 agosto, 2011

A verdade da mentira


Sobe ao ramo mais alto da árvore e fica lá, do cimo, a olha-lo.
A distância permite-lhe apenas reconhecer os seus contornos, a forma de balançar o corpo quando caminha, o rasgar dos olhos quando sorri.
Ela sabe que o sorriso não é para ela, já não é para ela, mas ainda assim, do alto da árvore devolve-lhe o sorriso que lhe preenche por instantes a alma e aquece-a do frio que lhe percorre o corpo, desabrigado lá em cima.
Recosta-se e fica a vê-lo, ao longe. Abandona-se a imaginar tudo o que poderia acontecer se ela estivesse lá com ele, do outro lado do mundo.
A imaginação perde-se na sua boca carnuda que, entre risos, diz as coisas mais descabidas «vamos fugir os dois?» parece que ainda o ouve sussurrar, de voz aveludada, ao ouvido.
Os braços compridos acompanham desajeitados o seu corpo, que parece que dança em vez de andar. «És louco, sabias?» repetia-lhe empurrando-o. Ele agarrava-lhe as pernas para a por às costas e acabavam invariavelmente os dois no chão caídos. Despojados como um sem-abrigo.
Levanta um pouco as costas doridas de um ramo mais áspero. Vê-o a entrar na sua casa, acender a luz do quarto e imagina-o a atirar o corpo embriagado para cima da cama. Fica assim, atravessado ao comprido. Aconchega-se a uma ramagem de folhas e imagina-se a acordar a seu lado: a guerra de almofadas, a luta pelo chuveiro, a batalha de espuma no duche, o duelo de pasta de dentes que se transforma em creme de rosto. E ria-se sozinha do alto da sua árvore. Ria-se, para depois chorar baixinho.
Naquele momento já não o conseguia ver, lamentava num vazio imenso, amanhã tentava novamente. Mas tinha a sensação de que ele cada vez estava mais longe. Ou talvez saísse à rua menos vezes. Não sabia. Ainda assim, todos os dias subia ao alto da árvore para o espreitar um pouco, depois respirava fundo quando o via desaparecer, e regressava para o seu mundo. Descia devagar, cada ramo da árvore, como se fosse o caminho mais íngreme. Os ramos já a conheciam, eram bondosos com ela, amparavam-na de qualquer pé em falso, qualquer deslize. Chegavam a abraça-la para que não caísse.
Ainda atordoada, regressava à sua casa. Abanava a cabeça, beliscava os braços, entrava. Não sabia qual era a verdade da mentira.