«
Ainda me prendes com o olhar»
Sente ao entrar apressada no elevador e finge não reparar no olhar que a persegue, fitando-a cruamente. Finge interessar-se pelo cabelo no espelho, ajeitando-o com os dedos, indiferente ao corpo que divide o espaço consigo.
Vê o seu sorriso reflectido, enigmático, e murmura algo coloquial sobre o tempo «
que chato esta chuva». Ele acena e os olhos permanecem fixos nos seus, agora através do espelho, embatendo, estilhaçando a frio.
Foge dele, do olhar que penetra o vidro, e olha para baixo. Um chão cinzento sem nada inscrito. Vazio.Também eles já nada têm para dizer, sugados num silêncio incómodo que os fustiga.
Que «
sim» responde-lhe baixinho e os olhos cruzam-se novamente, agora de frente. Esgrimem-se. Combatem, a flechas de fogo. Caem num meridiano perdido.
Por instinto, ele pisca-lhe o olho, já destreinado, ela esboça o sorriso antigo. Não dizem nada. Apenas o olhar preso, encaixado, violento e febril. Reacende mais uma vez o pavio, a chama queima altiva. Desconcertante. Uma viagem imprevista que se esperava curta e revela comprida. O ar escasseia e os pulmões reagem enfurecidos.
«
Só mais dois pisos» grita em si confusa. Naquele instante, já não sabe se quer que ele suba rápido, ou se pare ali, num hiato escuro, onde os olhares beijam-se despidos de razão ou sentido.
Enfrenta-o agora decidida, questiona por segundos dolorosos, se aquele desejo é recíproco. Ele não recua, nem avança. Apenas a perfura subtilmente com o olhar, perturbante e incompreensível.
O elevador pára e os olhares soltam-se com o impulso físico. Ela soluça um «
bom fim-de-semana» como que a vestir-se apressada pela manhã dizendo «
é bom fazer amor contigo».