14 setembro, 2011

Olhar Clandestino


Olhar clandestino

É no olhar que te encontro.
Esquivo, no orvalho da manhã.
Corre assustado
O olhar de uma gazela.
Frágil,
Espreita tímido a dor
Entre ramagens de arbustos desordenados,
Seduzido pelo perigo que o mata.
 Encontro-te no olhar de pecado,
Apressado,
Na floresta densa onde se esconde
O desejo furtivo camuflado
De orgulho saciado,
Mas ardentemente sôfrego.
Surge ao meu encontro o olhar ferido,
Forasteiro fugidio
Denuncia a nudez com que me vestes.



12 setembro, 2011

Não entendo



«Não entendo
Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma bênção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação:
quero entender um pouco.
Não demais:
mas pelo menos entender que não entendo.»

Clarice Lispector

09 setembro, 2011

Aproximação


«Sem que déssemos conta, o meu espírito e o dela tinham-se aproximado desmesuradamente. Como qualquer jovem casal de amantes que se despe em conjunto.
(...)
No mais profundo silêncio conseguimos estabelecer diálogo»

Haruki Murakami in 'Spunik, meu amor'

08 setembro, 2011

Yo no lo sé de cierto



«Yo no lo sé de cierto, pero supongo 
que una mujer y un hombre
algún día se quieren,
se van quedando solos poco a poco,
algo en su corazón les dice que están solos,
solos sobre la tierra se penetran,
se van matando el uno al otro.
Todo se hace en silencio. Como
se hace la luz dentro del ojo.
El amor une cuerpos.
En silencio se van llenando el uno al otro.
Cualquier día despiertan, sobre brazos;
piensan entonces que lo saben todo.
Se ven desnudos y lo saben todo.
(Yo no lo sé de cierto. Lo supongo)»
Jaime Sabines

06 setembro, 2011

Ainda me prendes


«Ainda me prendes com o olhar»
Sente ao entrar apressada no elevador e finge não reparar no olhar que a persegue, fitando-a cruamente. Finge interessar-se pelo cabelo no espelho, ajeitando-o com os dedos, indiferente ao corpo que divide o espaço consigo.
Vê o seu sorriso reflectido, enigmático, e murmura algo coloquial sobre o tempo «que chato esta chuva». Ele acena e os olhos permanecem fixos nos seus, agora através do espelho, embatendo, estilhaçando a frio.
Foge dele, do olhar que penetra o vidro, e olha para baixo. Um chão cinzento sem nada inscrito. Vazio.Também eles já  nada têm para dizer, sugados num silêncio incómodo que os fustiga.
Que «sim» responde-lhe baixinho e os olhos cruzam-se novamente, agora de frente. Esgrimem-se. Combatem, a flechas de fogo. Caem num meridiano perdido.
Por instinto, ele pisca-lhe o olho, já destreinado, ela esboça o sorriso antigo. Não dizem nada. Apenas o olhar preso, encaixado, violento e febril. Reacende mais uma vez o pavio, a chama queima altiva. Desconcertante. Uma viagem imprevista que se esperava curta e revela comprida. O ar escasseia e os pulmões reagem enfurecidos.
«Só mais dois pisos» grita em si confusa. Naquele instante, já não sabe se quer que ele suba rápido, ou se pare ali, num hiato escuro, onde os olhares beijam-se despidos de razão ou sentido.
Enfrenta-o agora decidida, questiona  por segundos dolorosos, se aquele desejo é recíproco. Ele não recua, nem avança. Apenas a perfura subtilmente com o olhar, perturbante e incompreensível.
O elevador pára e os olhares soltam-se com o impulso físico. Ela soluça um «bom fim-de-semana» como que a vestir-se apressada pela manhã dizendo «é bom fazer amor contigo».

01 setembro, 2011

Miss...



Nós tínhamos uma coisa que chamo de ‘identificazzione di una donna’. Era uma aproximação de alma que rolava comigo, com você (…) pessoas sensíveis, que têm uma alma parecida. As coisas que a gente escolhia para enxergar nesse mundo eram parecidas. Apontávamos para os mesmos lugares…
Caio Fernando Abreu