«Nunca é agora entre nós, é sempre até Domingo, até sexta, até terça, até ao próximo mês, até para o ano, mas evitamos cuidadosamente enfrentar-nos, temos medo uns dos outros, o medo do que sentimos uns pelos outros, medo de dizer Gosto de ti.» António Lobo Antunes
16 setembro, 2011
Palavras mortas
Oiço com tristeza as tuas palavras mortas.
Elas habitam o vazio, inventadas de artifícios. Condenadas ao isolamento de nunca verdadeiramente existirem.
Mortas, jazem a meu lado, desprovidas de sentido. São palavras soltas, coladas em frases eloquentes mas invisíveis. Questiono se o propósito será o meu encantamento ou feitiço. Contemplo-as espantada de admiração, quase sendo seduzida. Mas para lá delas, não vejo mais nada. Só cadáveres, fantasmas macilentos sem brilho. Palavras que sucumbiram antes de terem nascido.
Falta-lhes a coragem para existir, viver tudo o que declamam no escuro. Sorumbáticas, elas não reagem, balbuciam demagogia. Oiço as palavras defuntas, em frases desmembradas onde perco o raciocínio. Talvez por serem ocas, disformadas, sem corpo que as absorva e lhes dê abrigo.
Prefiro as palavras sinceras e destemidas. A magia do directo e simples, mesmo que mal escrito. Prefiro as palavras que enfrentam os olhos, valentes, avançam sem colete salva-vidas. Mergulham de cabeça, desafiam a morte, entregam-se na plenitude de existirem. Abrem os braços ao corpo e à mente, enfrentam com a carne o perigo. Mas essas são as palavras que nunca me dirás ao ouvido.
15 setembro, 2011
Ainda é difícil
Ainda é difícil olhar-te e não sentir nada.
Ainda é difícil olhar-te. Enfrentar o odor do teu sorriso. O calor do teu corpo a milímetros do meu.
Mesmo que já não signifique nada, que não sirva para nada. A verdade? Eu não consigo não sentir nada. E é nessa confusão que me defino. Na tortura de uma indiferença encenada, olho-te nos olhos e finjo, finjo não sentir nada. Continuamos ridículos lado a lado, erguendo entre nós o muro baço do espaço. Apenas os olhares se tocam desassossegados. Violentam-se em vertigens. Mas os corpos petrificados não reagem. Inertes, fingem não sentir nada. Sei que lês, na transparência, tudo aquilo que eu sinto.
14 setembro, 2011
Olhar Clandestino
Olhar clandestino
É no olhar que te encontro.
Esquivo,
no orvalho da manhã.
Corre
assustado
O
olhar de uma gazela.
Frágil,
Espreita
tímido a dor
Entre
ramagens de arbustos desordenados,
Seduzido
pelo perigo que o mata.
Apressado,
Na
floresta densa onde se esconde
O
desejo furtivo camuflado
De
orgulho saciado,
Mas
ardentemente sôfrego.
Surge
ao meu encontro o olhar ferido,
Forasteiro
fugidio
Denuncia
a nudez com que me vestes.
13 setembro, 2011
12 setembro, 2011
Não entendo
«Não entendo
Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma bênção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação:
quero entender um pouco.
Não demais:
mas pelo menos entender que não entendo.»
Clarice Lispector
Clarice Lispector
09 setembro, 2011
Aproximação
«Sem que déssemos conta, o meu espírito e o dela tinham-se aproximado desmesuradamente. Como qualquer jovem casal de amantes que se despe em conjunto.
(...)
No mais profundo silêncio conseguimos estabelecer diálogo»
Haruki Murakami in 'Spunik, meu amor'
08 setembro, 2011
Yo no lo sé de cierto
«Yo no lo sé de cierto, pero supongo
que una mujer y un hombre
algún día se quieren,
se van quedando solos poco a poco,
algo en su corazón les dice que están solos,
solos sobre la tierra se penetran,
se van matando el uno al otro.
algún día se quieren,
se van quedando solos poco a poco,
algo en su corazón les dice que están solos,
solos sobre la tierra se penetran,
se van matando el uno al otro.
Todo se hace en silencio. Como
se hace la luz dentro del ojo.
El amor une cuerpos.
En silencio se van llenando el uno al otro.
se hace la luz dentro del ojo.
El amor une cuerpos.
En silencio se van llenando el uno al otro.
Cualquier día despiertan, sobre brazos;
piensan entonces que lo saben todo.
Se ven desnudos y lo saben todo.
piensan entonces que lo saben todo.
Se ven desnudos y lo saben todo.
(Yo no lo sé de cierto. Lo supongo)»
Jaime Sabines
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