De repente eras só tu e eu. Parados, imóveis.
Invadia-nos o silêncio cálido, queimava o ar que respirávamos um do outro a escassos centímetros. Um espaço apertado de hesitações.Olhares escorregadios pelo chão, na parede, prisioneiros sem fuga possível. Debatiam-se por esconder a cumplicidade das emoções. Fingiam-se, mutuamente.
Violentava-me o peito um desejo abrupto desconcertante, sem qualquer rumo ou explicação. E tudo à volta tornou-se uma espécie de névoa, um céu encoberto, acutilava-me a frio aquela estranha sensação.
De repente eras só tu e eu. Talvez fosse algo entre nós diferente, constrangedor. Não reconheci exactamente o porquê, a razão, senti-me perdida, paradoxalmente nervosa.Talvez o calor do dia embriagou a minha imaginação, viciada de insatisfação.
Passou-me pela cabeça beijar-te, provar os teus lábios e saboreá-los demoradamente, trinca-los levemente, percorrer a tua língua. Passou-me pela cabeça beijar-te, se soubesse que não pedirias justificação. Porque tudo é tingido a palavras asfixiantes de dúvidas e receios, em conjecturas absurdas sobre o depois?
O espaço era apertado. Entre nós, um palco suspenso de acção.