04 outubro, 2011

Dependência


Há uma certa dependência na palavra "quero-te". Um veneno que vicia a vontade, amplia o desejo, atordoa a racionalidade. Há uma espécie de fraqueza em toda a palavra "saudade", há aperto, tristeza. O querer não sentir, a luta por fingir tudo o que não se sente. A negação. A inquietação com que se entrega a alma, a vontade acelerada, irada, impotente. O corpo que se debate, pele contra pele, ansioso. Há um abraço envolvente. Protege a fragilidade de quem se atira de cabeça. Um salto para o desconhecido, sem perguntas, nem direcção. Um mergulho sem colete nas marés vivas da paixão. Há um desistir que se anseia, porque a saudade mata, corrói, desgasta. Há a embriaguez de acreditar que o impossível se arrasta, transforma-se e vinga. Num movimento constante.É tudo sempre tão pouco, tão fugaz, insatisfeito.
Nunca o sonho é suficiente, ou a fantasia o bastante.

30 setembro, 2011

Bolhas de Ar



Foi despida que se entregou às águas encantadas que a abraçaram. Sentiu que era lá que encontraria a calma que desesperadamente procurava. Um mar imenso de água salgada, sereno de palavras, tão belo como infinito. Porque toda a beleza é, por si só, ilimitada.
Pensou em dar um único mergulho, para se refrescar do calor do Verão. Era apenas um ir e voltar fugaz. Por isso entrou nua de medo, mar dentro, desprotegida, despida de hesitação, sedenta de paz.
O mar foi arrefecendo o ardor das feridas gravadas na pele, curando-as com bondosa suavidade e atenção. O seu ritmo, tranquilizante, embalava-a, como por magia, entre carinho e paixão.
Sem notar, estava já longe da costa, rodeada da água salgada, perdida em alto mar. Não percebeu o que aconteceu, porquê, ou como foi ali parar. Apenas submergia o seu corpo frágil, não sabia se vivo ou morto, naufragado a flutuar.
Tentou esbracejar, em vão, assustada, quando percebeu que se estava a afastar. Sem fôlego não conseguia mais debater-se com as correntes que a arrastavam e puxavam para o fundo do mar. Num remoinho de dúvidas, apoderou-se dela uma espécie de paralisia que a impossibilitou de nadar. Deixou-se ir, pelos lábios da maresia que a percorriam sequiosos, impedindo-a de pensar. Daquela forma esdrúxula, imprevisível, intensa, apertava-lhe os pulmões violentamente, deixando de respirar.
Em águas profundas, encontra-se um corpo despojado, tão maravilhado quanto agitado, preso a uma rede de indecisões, sem saber se deve fugir ou ficar.
«tenho medo» sufoca entre espasmos de dor, soltando lágrimas aprisionadas em bolhas de ar.

27 setembro, 2011

Entre mim e a vida


É uma espécie de discussão, entre mim e a vida. Um diálogo surdo de incompreensão. Pergunto porque me sacode com raiva, quebra as asas com que me invento para voar. Do seu lado, apenas um rosto envidraçado com o perigo constante de estilhaçar. Frágil, escorregadio. O sabor da vida, uma mistura inebriante de contradições. Fragrâncias adocicadas, ludibriantes de ilusões.
Penso em ti. Absurdamente, penso em tudo o que não revelei. E sei, com toda a certeza que a incerteza contém, que queria ter-te agora aqui, neste preciso momento. Novamente, os teus braços quentes à minha volta, o cheiro da tua respiração. Entre gritos intensos de discórdia, deflagra incontrolável o desejo que controlo entre as mãos. Queima por dentro, jorra abundantemente, a loucura da imaginação.
A vida olha-me de frente, rejubila crueldade. Sabe que sofro inevitavelmente a dor da negação. Que mordo-me, rasgo-me por dentro, mas não assumo a dependência química onde aprisionaste a minha razão.
Penso em ti, com a calma a esvair-se nas veias, sangrando insatisfação. Não sei o quero, mas preciso sacudir-te da minha cabeça, vomitar-te do meu peito, transpirar o desejo insano que a sedução constrói.


22 setembro, 2011

E depois?

Deixaram a manhã acordar por cima dos seus corpos entrelaçados.
O sol abriu-lhes os olhos devagar. A noite passara por eles certamente. Apressada. Dissipada no sabor doce que lhes resta na boca, no odor da pele trespassada pelo que se possa inventar. A noite passara, certamente, sem qualquer um deles notar. Levou com ela o olhar cúmplice, de quem nunca se terá.
A manhã acordou-os, cansada, de tanto que a fizeram esperar.
Deveria ser noite, sempre, naquele abraço apertado
E depois? O depois podia esperar.



21 setembro, 2011

Apertado




De repente eras só tu e eu. Parados, imóveis.
Invadia-nos o silêncio cálido, queimava o ar que respirávamos um do outro a escassos centímetros. Um espaço apertado de hesitações.Olhares escorregadios pelo chão, na parede, prisioneiros sem fuga possível. Debatiam-se por esconder a cumplicidade das emoções. Fingiam-se, mutuamente.
Violentava-me o peito um desejo abrupto desconcertante, sem qualquer rumo ou explicação. E tudo à volta tornou-se uma espécie de névoa, um céu encoberto, acutilava-me a frio aquela estranha sensação.
De repente eras só tu e eu. Talvez fosse algo entre nós diferente, constrangedor. Não reconheci exactamente o porquê, a razão, senti-me perdida, paradoxalmente nervosa.Talvez o calor do dia embriagou a minha imaginação, viciada de insatisfação.
Passou-me pela cabeça beijar-te, provar os teus lábios e saboreá-los demoradamente, trinca-los levemente, percorrer a tua língua. Passou-me pela cabeça beijar-te, se soubesse que não pedirias justificação. Porque tudo é tingido a palavras asfixiantes de dúvidas e receios, em conjecturas absurdas sobre o depois?
O espaço era apertado. Entre nós, um palco suspenso de acção.

20 setembro, 2011

Fechar os olhos



Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém. E poder ter a absoluta certeza de que esse alguém, também pensa em mim quando fecha os olhos, que faço falta quando não estou por perto.
Mário Quintana