«Nunca é agora entre nós, é sempre até Domingo, até sexta, até terça, até ao próximo mês, até para o ano, mas evitamos cuidadosamente enfrentar-nos, temos medo uns dos outros, o medo do que sentimos uns pelos outros, medo de dizer Gosto de ti.» António Lobo Antunes
14 outubro, 2011
Dás-me cor
Dás-me cor.
Na multidão que invade os dias, encontrar-te foi uma explosão de vida. Um arco-íris gigante, infinito. Uma aguarela colorida, uma tinta brilhante.
Para explicar, todas as palavras são pobres, minúsculas. Queria pintar-te, todo, da cabeça aos pés, para perceberes o sentido. Pincelar-te ao ouvido «vem ter comigo» e besuntar-me nas cores com que me preenches a pele, tinges o meu sorriso.
Invades-me o olhar abertamente e o meu corpo treme de aviso. Não te consigo esquecer, por um minuto que seja. Entranhaste-te nos meus poros, corres pelo circuito sanguíneo e tatuaste as cores no meu paladar, no olfacto, no ouvido. Pintaste-me na tua tela, a traços grossos de carinho e amor. E onde eu era preto e branco, agora transbordo cor.
12 outubro, 2011
Intervalo
É assim uma espécie de intervalo, num filme enorme e aborrecido, onde por vezes acabamos por dormitar.
Respira-se fundo e o sorriso aparece de repente no acender das luzes. Levanta-se da cadeira que nos amarra, estica-se as pernas libertas. Vai-se até lá fora para apanhar um pouco de ar. Tem-se sede, fome. Tem-se um tudo confuso, misturado que não sabemos explicar.
É mesmo assim, como num acordar de um sonho, todos os sentidos rejubilam de prazer ao encontrar-te. Enrolar o meu corpo no teu, misturar as minhas pernas nas tuas, sentir o fresco das nossas conversas como se fosse uma brisa do mar. Tocar-te. Tocares-me. Com os olhos, as mãos, os lábios. Por fim, matar a sede nos teus beijos, a fome nos teus abraços.
É assim, como uma espécie de intervalo, daqueles que ansiamos o filme todo e nos dilacera a alma quando acaba.
10 outubro, 2011
Rocha fria
O corpo deambulava mecanicamente, obedecendo aos movimentos involuntários. Arrastava-se. Ritmado. Um passo, depois outro, num avançar cego, por instinto. O olhar pousado na areia molhada, agora marcada pelas suas pegadas num areal virgem. A musica rasgava-lhe os ouvidos, impedindo as vozes de entrar. As outras e as suas. Muitas, demasiadas, gritavam sem parar. Procurava a paz do silêncio nos rochedos, no rebentar das ondas do mar. Não lhe apetecia falar. As palavras espetavam-lhe os ouvidos como alfinetes. Aquela rocha dura, fria, era onde se abrigava, como numa concha. Abraçada, protegida. O seu corpo encaixava-se nela por medida. O vento passava ao lado sem incomodar, o mar espreguiçava-se na sua frente enquanto o sol brincava às escondidas.
Sente, acha que é isso - sente. Porque vem de dentro. Uma amálgama de sensações doridas, de todas as decisões errantes com que constantemente se martiriza. Um emaranhado de dúvidas e contradições. Ali, todas elas sentadas naquele buraco da rocha fria, cercam, possuem, esmagam de dor.
Vira-se de costas, sem hesitar. Era assim que se despedia de tudo o que deixava para trás, do que não podia ficar. Ao fundo, de olhos baços, ainda vislumbra o sorriso de um abraço, um beijo meigo apertado, o calor do corpo que a aqueceu. Aos poucos torna-se numa névoa indistinta, ou será a noite a escurecer, tudo acaba por desaparecer.
Esconde as lágrimas num rosto calejado, pálido. Os lábios comprimidos lutam por se controlar. Mas uma tempestade inevitável desabava na noite escura, quando sozinha permite-se chorar.
07 outubro, 2011
O momento
Que viver seja arriscar e não perder o momento. Abordar sem medo um estranho no meio da rua que nos desperte atenção, mesmo que não tenha qualquer explicação racional, e ousar conhece-lo, desbrava-lo, porque pode ser a pessoa da nossa vida e deixa-lo passar pode significar perde-lo para sempre.
Que o amor, aquela palavra mágica do dicionário, não seja apenas um sentimento.Não seja sequer a pessoa que ama ou quem é amado. Seja muito mais do que isso e, ao mesmo tempo, tão fugaz e frágil. Que o amor seja o pequeno espaço que existe entre duas pessoas, que elas conseguem suster entre os seus corpos com cumplicidade.Na tentativa de se partilharem, de se prolongarem um no outro.
É assim que para mim é viver.
Há quem sonhe comigo sem eu saber e me surpreenda com carinho assim de repente. Deixa-me um sorriso no rosto, o conforto que valeu a pena arriscar conhece-lo e a certeza que ainda existe muito de nós por partilhar e conhecer.
06 outubro, 2011
Como esquecer
«Como esquecer?
Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se
esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando
alguém se vai embora de repente como é que faz para ficar? (…) As pessoas têm
de morrer, os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de
ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar. Sim, mas como se faz? Como
se esquece?
Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta
esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. (...) É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso
aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É
preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém
aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou de coração. Ninguém aguenta
estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos.
Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar
entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de termina de lembra-lo. A
saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doida, devidamente
honrada. É uma dor que é preciso, primeiro, aceitar.
É preciso aceitar esta magoa esta moínha, que nos despedaça
o coração e que nos moí mesmo e que nos da cabo do juízo. É preciso aceitar o
amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de
justiça, a falta de solução.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para
trabalhar mais, para distrair a vista, para nos distrairmos mais, mas quanto
mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa
espera acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento,
conseguidos com grande custo, com comprimidos, amigos, livros e copos, pagam-se
depois em conduídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr
o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar. (…)
Para esquecer uma pessoa não há vias rápidas, não há
suplentes, não há calmantes, ilhas nas Caraíbas, livros de poesia. Só há
lembrança, dor e lentidão, com uns breves intervalos pelo meio para retomar o
fôlego. (…)
Quando já é tarde para voltar atrás, percebe-se que há
esquecimentos tão caros que nunca se podem pagar. Como é que se pode esquecer o
que só se consegue lembrar!
Aí, está o sofrimento maior de todos. Aí está a maior das
felicidades.»
Miguel Esteves Cardoso, in “Último Volume”
05 outubro, 2011
Simplesmente olhar
Gosto de enterrar os pés na areia e ficar sentada junto ao mar.
Prender os olhos no sol e descer com ele até ao horizonte, pintar-me com as tonalidades que o céu me revela ao anoitecer. Gosto do momento, daquele instante só meu. Calmo e distante de qualquer realidade. Procuro o sossego que acalme a incompreensão errante que me desgasta. Só sei ser assim, insatisfeita, incompleta, inconstante.
Mas entre mim e a vida não há meias-verdades. Não há espaço para planos, intenções premeditadas. Eu não jogo à defesa, nem ao ataque. Eu simplesmente não jogo - Eu amo. Sem pensar, sem medir. Sem comparar ou reclamar. Transbordo o que amo nos braços, nas pernas, nos olhos, nos lábios, nas mãos. A transparência é a minha maior fragilidade. Eu dispo-me de qualquer objecto de combate. Não sou um desafio para ninguém, nada tenho para descobrir ou fascinar. Porque sou tão simples e imprevisível como os meus actos, mas não sou nada mais do que isso. Entre mim e a vida não há nenhum mistério, sem ser essa minha vontade de enterrar os pés na areia e olhar o mar.
Poema Te olho nos Olhos
«Te olho nos olhos e você reclama
Que te olho muito profundamente.
Desculpa,
Tudo que vivi foi profundamente
Eu te ensinei quem sou
E você foi me tirando
Os espaços entre os abraços,
Guarda-me apenas uma fresta.
Eu que sempre fui livre,
Não importava o que os outros dissessem.
Até onde posso ir para te resgatar?
Reclama de mim, como se houvesse a possibilidade
De me inventar de novo.
Desculpa...se te olho profundamente,
Rente à pele
A ponto de ver seus ancestrais
Nos seus traços.
A ponto de ver a estrada
Muito antes dos seus passos.
Eu não vou separar as minhas vitórias
Dos meus fracassos!
Eu não vou renunciar a mim;
Nenhuma parte, nenhum pedaço do meu ser
Vibrante, errante, sujo, livre, quente.
Eu quero estar viva e permanecer
Te olhando profundamente."
04 outubro, 2011
Dependência
Há uma certa dependência na palavra "quero-te". Um veneno que vicia a vontade, amplia o desejo, atordoa a racionalidade. Há uma espécie de fraqueza em toda a palavra "saudade", há aperto, tristeza. O querer não sentir, a luta por fingir tudo o que não se sente. A negação. A inquietação com que se entrega a alma, a vontade acelerada, irada, impotente. O corpo que se debate, pele contra pele, ansioso. Há um abraço envolvente. Protege a fragilidade de quem se atira de cabeça. Um salto para o desconhecido, sem perguntas, nem direcção. Um mergulho sem colete nas marés vivas da paixão. Há um desistir que se anseia, porque a saudade mata, corrói, desgasta. Há a embriaguez de acreditar que o impossível se arrasta, transforma-se e vinga. Num movimento constante.É tudo sempre tão pouco, tão fugaz, insatisfeito.
Nunca o sonho é suficiente, ou a fantasia o bastante.
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