27 outubro, 2011

Espaço


Contigo, até debaixo de um chapéu de chuva o espaço é demasiado grande.
Mesmo que os teus braços envolvam as minhas costas e o teu corpo caminhe colado ao meu, lado a lado. Precisamos ainda de menos espaço.
Talvez bastasse o espaço de um só, se a entrega fosse possível.
Talvez os corpos tenham de desistir do espaço que cada um tem. Sem receio ou orgulho. Perder a noção da pertença, de posse, de território.
É esse espaço pequenino que preciso para estar contigo, abrigada da chuva que cai à volta, enquanto desbravamos a fórmula mágica da fusão.

25 outubro, 2011

Carta a quem nunca se esqueceu


Se pudesse escolher um momento da vida para parar o tempo,
escolhia as horas daquela noite que nos pertenceu.
Não o momento, tanto tempo depois, em que os corpos se entregaram,
sofridos em vez de sôfregos, confusos e destruídos.
Mas a noite virgem, mágica, em que se tocaram de dentro para fora,
tactearam no escuro, cheiraram-se, roçaram cada milímetro de pele,
aventureiros destemidos, como se aquele instante fosse o fim do mundo.
Se pudesse escolher um momento, seria essa noite embriagada nos teus braços,
não deixaria romper o dia, carrasco de sonhos impossíveis.
Viveria a vida toda nessa escuridão, numa cegueira voluntária, sem medo, sem nada,
numa tenda montada no meio do mato, desalojada, em qualquer canto do planeta.
Mas a teu lado, só queria estar a teu lado. À beira de uma estrada ou no cume de um precipício.
Em qualquer lugar, enrolada no teu corpo, nas tuas pernas compridas,
sentir a tua respiração no meu rosto, a voz quente nos meus ouvidos.
Alimentar-me dos beijos impregnados de álcool e tabaco, tudo teu eu queria.
Era esse o momento que eu eternizava, e vivia, repetidamente, dia após dia.



21 outubro, 2011

Atropelar



Amar é a capacidade de atropelar e ser atropelado por alguém.
Não ter medo da velocidade, do clima e do piso. Entrar em contra-mão, não respeitar os sinais proibidos e enfrentar todos os cruzamentos que nos apareçam pela frente sem hesitar.
Que amar seja isso mesmo - Cruzar. Sem pânico.
Atravessar de olhos vendados, confiar no instinto. Destruir as linhas rígidas, paralelas eternas que nunca se encontram, os traços contínuos, os separadores de cimento a meio...
Amar é o desafio constante nas veias, são transversais, de braços, de pernas, de desejo. Acidentes provocados com a sede de quem quer entregar-se, sem pensar, ou medo de não receber.
Amar é atropelar e deixar-se atropelar.Voluntariamente.

19 outubro, 2011

Saudade


Há uma dose de egoísmo na palavra "Saudade".
Essa doença que deixa o corpo em dormência, a visão turva e o raciocínio lento, gasto. Queremos ter, porque sentimos falta. E a garganta seca das palavras que não saem na hora certa. Orgulhosas, debatem-se e proclamam seguras "Boa Viagem" quando por dentro ecoam dolorosamente, "Vou ter tantas saudades".
Depois chegam, vitoriosas, as saudades arrebatadoras. Deitam-nos ao chão indiferentes ao nosso esforço inglório para as receber com calma, em vez de ansiedade. Apoderam-se do corpo, da mente e, num golpe fatal , acertam-nos no peito. Um arrepio, o medo, o desespero do que ainda nem foi e já nos rasga. O vicio é um bicho feio, corrosivo, um vírus nefasto.
«Bolas, vou ter saudades tuas, de ter-te todos os dias, um pouco que seja, estares aqui». Suspiro agitada. Questiono-me a todo o momento, onde estás? Quando voltas? Porque já sinto a tua falta...
Mas nada te pergunto, num silêncio tremido, solto apenas numa voz abafada "Boa Viagem".
Há uma dose, imensa, de orgulho... na palavra "Saudade".

18 outubro, 2011

Não consigo



Tu e eu. Éramos tão perto, esmagados um no outro. De tal forma não distinguia a tua pele da minha, o meu pensamento do teu. Como se o meu braço completasse o teu braço, a tua perna fosse o prolongamento da minha. Éramos assim um do outro, um no outro, um só, o mesmo. 
Um mundo só nosso despido de gente, uma nudez onde não cabia mais ninguém. Era assim que te abraçava, num diálogo mudo, aquele que só o olhar consegue estabelecer. Éramos tudo, o presente, o passado e o futuro. Ainda sonho-te, aqui comigo, envolto nas palavras com que me cobrias, as que nunca irão acontecer. Sim, ainda vagueio à deriva, como um sem-abrigo.
Há tanta coisa que te queria dizer. Mas não consigo.

17 outubro, 2011

E daí?



«Já escondi um amor com medo de perdê-lo, já perdi um amor por escondê-lo.
Já segurei nas mãos de alguém por medo, já tive tanto medo, ao ponto de nem sentir minhas mãos.
Já passei noites chorando até pegar no sono, já fui dormir tão feliz, ao ponto de nem conseguir fechar os olhos.
Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão.
Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:
- E daí? EU ADORO VOAR!»
Clarice Lispector