«Nunca é agora entre nós, é sempre até Domingo, até sexta, até terça, até ao próximo mês, até para o ano, mas evitamos cuidadosamente enfrentar-nos, temos medo uns dos outros, o medo do que sentimos uns pelos outros, medo de dizer Gosto de ti.» António Lobo Antunes
15 novembro, 2011
Gaivota sem mar
Quanto sofre uma gaivota se lhe tirarem o mar?
Pergunto na ilusão de um olhar.
É uma sensação antiga, fala-se muito mas conversa-se tão pouco. São sinais sonoros acompanhados de movimentos dos músculos a boca. Sons, ruídos escuros, defuntos. Nadas, pronunciados sem pensar.
Há uma escassez das palavras conversadas em diálogos verdadeiramente sentidos. Abafadas pela torrente de palavras que se juntam em frases banais, estereotipadas, absurdas, ridículas. Chamam-lhe racionais. Não me interessa para nada o tempo, a economia, o dia de trabalho cinzento. E todos os assuntos vulgares.
São barulhos que perfuram o prazer dos sentidos, com a violência de quem nada tem para dizer, enquanto outros, escondidos num silêncio, têm tanto para nos dar.
É possível amar palavras estrangeiras que zumbem nos ouvidos, deslumbrando a alma, confusa, de quem nada tinha a esperar. Envolver-se nelas, como num abrigo clandestino, abraça-las e guarda-las no mais profundo de nós sem pensar. Sonha-las, quando só o sonho é permitido. Vivê-las até onde o diálogo nos levar.
É possível amar as palavras, as que nos assaltam o peito agitado, tornando monólogos em longas conversas por explorar. É possível, tão possível, que um dia acabamos por nos apaixonar por essas mesmas palavras insanas, vadias, que nos cruzaram a vida, romperam a rotina, com um simples dialogar.
Conversas que nos despem os corpos frágeis, beijam a pele sensível, numa intimidade que assusta porque queremos sempre mais e mais. E o vício é sufocante, a dependência mortal.
Para sobreviver, sofre-se, bastante.
Como uma gaivota a quem tiraram o mar.
14 novembro, 2011
10 novembro, 2011
Somos sozinhos
«Somos sozinhos com tudo o que amamos» Novalis.
Um corpo que se recolhe no silêncio do chão, a um canto os braços enlaçam as pernas e os olhos fecham-se para não ver. Rodeio-me de mim, como uma crisálida num casulo apertado. Quantas vezes caminho assim pela rua sem ninguém perceber. No mais íntimo dos medos, receio o contacto humano. Recuso viver. A realidade não basta, é vazia, deixa um buraco enorme que queima por dentro. Arde um fogo lento que se alastra, circunda e abafa o corpo dormente.
Aceno-te.
Estás no limite do horizonte (porque o que amamos está sempre lá, mesmo ao fundo).
Não te vejo, nunca te vejo, mas amo-te. Cada dia amo-te mais um pouco, de uma forma alucinante, numa dependência que não desejo ter. Sufoco cada gemido impotente de ausência, cada impossível que sei de cor. E ali mesmo, do meu canto, onde não espero nada da vida, nem a vida espera de mim. Espero apenas que estejas, do outro lado do horizonte. E, na mesma solidão que é não me teres, nem seres meu, me ames, desmesuradamente. Sem ninguém saber.
08 novembro, 2011
Sonho
E se fosse tudo um sonho? Se eu te disser que tu não existes?
Tu, tal como eu te quero e tenho. Tu não existes sem ser nos limites castradores do meu sonho impossível. Incorpóreo. Leviano. Sedutor.
Vagueio os olhos no horizonte vazio, imenso, numa espécie de sonambulismo e procuro encontrar-te pelo caminho entre juncos que me cercam, como um labirinto, a cada instante. Não quero saber do espaço gigante entre tu, eu e a vida. Quero apenas encontrar-te nessa minha fantasia sem escape, ou fuga possível. Quero-te em sonho por inteiro. Deitar-te a meu lado à deriva, despir-te de qualquer passado, envolver-te sem nada pelo meio. Entregar-me devagarinho, para que não me leves a alma no teu peito. Sim, quero-te nesse sonho invisível, isolado e intangível. Fundir-me em ti num ritual único de prazer e sensação. Colorido, brilhante.
E rasgo-me, impotente, no acordar constante e violento do sono que me conforta. Um despertar frio, incómodo. Uma angústia. Agonia. Dor.
Depois há novamente o sonho. Tu e eu, os dois, num universo longínquo, numa realidade distante.
Há um caos a que chamam vida e há a paz a que chamo sonho.
05 novembro, 2011
Cada segundo
Cada segundo que trago de ti faz-me sorrir.
Ainda que não perceba a razão, ou explicação. Ainda que me doa ter de partir naquela hora certa, me rasgue por dentro não saber onde vais ou quando voltas. Perder-me de ti.
Ainda assim, cada segundo, cada instante, é um pedaço de mundo nosso que guardo para mim.
E mesmo que ele derreta, no calor dos nossos corpos, se dissolva de desejo. Cada momento, cada beijo, vou guarda-lo doce no meu peito. E deixar a pele, arrepiada, transpirar lentamente o vício de ti.
04 novembro, 2011
Lágrimas salgadas
Porque eram salgadas, pensava que as lágrimas eram feitas de água do mar.
Por isso era lá que as derramava. Entre as ondas mais bravas, era lá que as largava rasgadas ao vento para, depois mais calma, prosseguir o seu caminho em paz.
Mas como eram salgadas, deixavam-lhe o sabor amargo na boca, ao escorrerem pelo rosto secando no canto dos lábios. Um sabor que se entranhava na pele, na língua, nos dentes, como se viesse bem de dentro, ainda mais salgado do que a água do mar.
Porque eram salgadas, as lágrimas que brotavam descontroladamente, atiradas ao mar, confundiam-se na espuma das aguas batidas, enfurecidas. Arrastavam-se nas correntes que invadia os rochedos e galgavam o muro que a distanciava do mar.
Indiferente ao frio e ao vento, pensou em entrar pelo mar dentro, para uma entrega total. Das lágrimas, que ocupavam todo o seu corpo, salgadas como a água do mar.
03 novembro, 2011
Amar um corpo
Nunca amei um corpo que não vi.
Para ama-lo precisei sempre de tempo e aproximação.
Num ritual diário. Como aprender a dançar, um passo, a seguir ao outro, em sintonia.
Para não estranha-lo e encaixa-lo suavemente no meu.
Precisei de vê-lo com os olhos, senti-lo com as mãos, os braços, a pele. Percorre-lo demoradamente com os lábios, saboreá-lo e sentir-lhe o odor.
Nunca amei um corpo que não conheci. A ausência é insuportável aos meus sentidos sedentos, insatisfeitos.
Mas só ao conhecer esse corpo que já amo - tacteando no escuro como se desbravasse insaciável um território novo deslumbrante - que posso ama-lo incondicionalmente, sem limites ou restrições.
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