05 dezembro, 2011

Não dá




«Não dá» disse-lhe por entre frases desconexas, desencontradas e sem sentido.
O quê? Ela não sabe, nem perguntou. Ele também não. Nem porquê ou como. Mas disse-o.
Soltou-se entre frases perdidas. Ambos sabem que os caminhos por onde andam não se irão cruzar mais. Que o mundo gira para o lado contrário sem parar e um vento forte os afasta.
E tudo se resume num «como estás?», e uma resposta evasiva simultânea «não muito bem». Um silêncio profundo, dorido, incapaz de ir além.
Seguem-se frases a jorrar palavras sem sentido. É preciso gritar estas palavras ocas até que os ouvidos doam e rasguem a pele. Fingir o impossível, na impotência de tudo o que se quer e não se tem.
«Temos de falar» disse-lhe num turbilhão de emoções tanto tempo contidas, prestes a explodir.
Falar de quê? Para quê? Pergunta-se na imensidão de vazio que lhe deixou, no silêncio abrupto onde a encarcerou sem explicação.
Porquê agora? Hoje? Neste momento?
Agride-a, certeiro com uma pedra na cabeça. E, ainda em transe, tudo à volta treme, o chão foge, por momentos perde a direcção.
«Um tempo», ela tinha pedido, lembra-se, um tempo de vida que ele não esperou.
«Não dá» zumbe-lhe aos ouvidos como se fosse a resposta ao seu pedido, aquela que tardou. Abrasiva, chega-lhe agora aos ouvidos desprevenidos, arranha-lhe a alma moribunda e suga-lhe uma réstia de vida do corpo que resvala, pelo abismo, sem precaução.


30 novembro, 2011

Chegar a ti



Digo para mim que talvez seja uma questão de altura.
Nem sempre estamos no mesmo patamar. Tu és alto, eu sou baixa. Há cerca de dois palmos de centímetros que nos separam. Dois palmos que fazem toda a diferença.

Por vezes olhar para cima causa tonturas e náuseas. Acredito que olhar para baixo provoque vertigens assustadoras. Digo que é mesmo assim, é uma questão de nivelamento. Tu não me vês, eu não te vejo.

Eu nem sempre aguento estar de bicos de pés para acompanhar os teus olhos. Compreender-te, ver o mesmo que tu, do teu ponto de vista, o teu ângulo.
Tu nunca experimentaste baixar-te, ver as coisas daqui. São diferentes sabias? Mas nunca sequer tentaste. É tão mais fácil esperar que alguém chegue a ti, te mime e te ame.

Aí do alto onde vives, é um mundo de sedução, completamente novo para mim. Subo-te sequiosa, ramo a ramo. Sou eu sempre que subo, sou também eu que me arranho. Ainda assim, nunca digo «não» e aceito cada desafio de subida que alcanço.
Chego ao alto do precipício, limpo o sangue das feridas e deixo-me possuir pelo encantamento do teu beijo. Ainda que as pernas me tremam de cansaço e exista uma dormência permanente, como se estivesse em pontas o dia inteiro. Eu aguento. Tenho aguentado sempre, as tuas horas vagas, os caprichos e ensejos.
É assim que chego a ti, com dificuldade, não nego. Porque sabes-me a vida, o sabor ácido do desejo.





29 novembro, 2011

Eu salto!



- Eu salto! E tu?
No final é tudo um desafio.
Quem vai ter coragem de saltar? Será que um vai sentir medo naquele segundo, vai hesitar?
- Eu salto! - Repetia com o trepidar da adrenalina a pulsar nas veias - Nem que feche os olhos, eu quero saltar!

Toda uma vida decidida num único salto. Lá em baixo um abismo enorme, infindável, era o paraíso sonhado, pronto para os abraçar. Enquanto o seu corpo ao vento, lá no alto, assustado e impaciente, ansiava voar.
Olhava para ele nos olhos fixamente, com aquela força que move rochedos, com a certeza, tão incerta, de que ele a iria acompanhar. Ele saltaria com ela, convencia-se, torcendo-se de pânico por dentro. Ainda assim, preparava-se determinada, chegava-se para a frente com cuidado, e respirava fundo para se mentalizar.

Era «o» salto, o único que podia dar. Um mergulho de cabeça, no escuro imprevisível. No prazer do momento, não imaginava sequer onde iria aterrar.
Mesmo assim arriscava tudo por aquele momento mágico. Um salto a dois, cúmplice do destino, não existiria nesta vida outra oportunidade igual.
Pediu-lhe para saltar de mãos dadas. Chegou-se o seu corpo quente para junto dele e sussurrou-lhe baixinho para nunca a deixar escapar.

No final é tudo um desafio.
Os desejos são os mesmos, mas a capacidade de cada um é diferente para os realizar.
Ela saltou, de olhos fechados, para o vazio imenso. Ele soltou-lhe a mão, não conseguiu saltar.

25 novembro, 2011

Flauta mágica



Há vozes que nos encantam como uma flauta mágica. Numa espécie de hipnose acalmam o espirito e transportam a nossa alma.

Acabava sempre por voltar aquele lugar. Enterrava os pés na areia e ainda sentia o coração a pulsar dentro das veias. Eram segundos em que acreditava que iria encontrar-lo. Segundos desconexos. Envoltos numa grande névoa de delírio. A loucura de o procurar. «Onde estás?» Não sabia. «Sei que não estás aqui» repetia para mim em solidão.
Ainda assim eu voltava sempre. Enquanto os meus pés soubessem o caminho e o corpo dormente me arrastasse para aquele lugar.
Olhava o mar revolto. As ondas de espuma a baterem iradas nas rochas. Assim fomos nós outrora. Dois seres rebeldes, ingénuos a vaguear.
«Foste tu? Ou fui eu?» Pergunto-me constantemente. Mas que importa agora? Perdemo-nos um do outro. Nunca nos soubemos manter ou fixar .
Como as marés vivas de Setembro, a voz dele tinha explodido no meu corpo um desejo estranho e intenso numa espécie de encantamento. O impossível, o improvável. Apaixonei-me de repente, sem notar. A forma como me sussurrava ao ouvido as loucuras que gostava de inventar, encarnava as minhas fantasias mais escondidas e fazia-me sonhar. Abriu o seu mundo desequilibrado e utópico que eu passei a amar. Fui espreitando devagarinho, a medo. Deslumbrando-me com o poder da melodia das palavras roucas que cantava, que não permitia pensar em mais nada, numa entrega visceral. Depois fechou-o outra vez, de repente, sem me avisar.
Hoje sinto-me aquele mar revolto, agitado que bate violento de encontro às rochas, que tento em vão derrubar. Sei que anda à deriva por aí, em qualquer canto do mundo, sozinho, distante. Que voltará um dia, talvez, mais calmo, mais reprimido por tudo o que a idade o obrigará a passar. Entre nós poderá ainda existir um beijo, um abraço, um olhar. Por agora, o mar bate nas rochas, vai e volta em boomerang. Assim é o desejo que tenho de encontra-lo. Inconstante. Insatisfeito. Poderoso. Como as músicas que me cantava ao ouvido, recordo-as repetidamente, sem conseguir parar.
NaNoWriMo :)

22 novembro, 2011

Loucura e Paixão


A loucura e a paixão andam de braços dados.
Não sei se uma chega primeiro do que a outra, se é uma que leva à outra ou se, simplesmente, atravessam por destino uma estrada encantada num qualquer cruzamento da vida.
Sei que se abraçam instintivamente e não se estranham. Entranham-se. Fundem-se numa mistura explosiva.
Toda a loucura tem o fogo da paixão a queimar violentamente a racionalidade esmagada, esquecida. Toda a paixão é muda de explicações e reinventa-se na mais cega insanidade, alimenta-se sôfrega na loucura.
Depois? Perguntas incrédulo. É como uma droga de dependência incontrolável, destinada a uma morte lenta e sofrida. Sente-se a ausência a cada dia que se passa distante, num batuque perpétuo, incómodo, agressivo. Aquilo a que chamam vulgarmente de saudade, mas é ausência. Um buraco negro e fundo, sem vida.
Penso em ti, vezes demais. Vejo os contornos do teu rosto, o cheiro da tua pele e o sabor dos teus beijos perseguem-me, a memória das tuas mãos no meu corpo embriaga os meus sentidos. Posso dizer-te que faço amor contigo todos os dias, basta fechar os olhos um bocadinho. Viajo constantemente, para bem longe, e levo-te comigo.

21 novembro, 2011

Sentir



Nem sempre tocar é sentir.
Há sensações que transbordam o simples tacto.
Para sentir é preciso chegar mais perto, mais profundo. Explorar, lentamente, o caminho que conduz à entrega do interior do corpo. Percorre-lo sem pressa, procurando em cada recanto um pedaço de magia e encanto. Depois, tactear a pele suada de desejo, transpirando a cumplicidade.
Sente-se com a alma desamarrada de dúvidas e racionalidade.

17 novembro, 2011

Gosto



Gosto de laranjas secas, de chocolate de cacau muito amargo, de bolachas moles quase rançosas. De falar com perfeitos desconhecidos em qualquer lado, dos lugares sentada de costas no comboio, de dormir com os pés de fora mesmo no Inverno. De ler livros a saltar os capítulos, de ver filmes que já sei o final. De andar com folhas de árvores coladas no vidro do carro porque as acho lindas, de guardar pedras da rua e andar com elas em anarquia pelas malas ... E podia continuar...
Gosto de pensar que são estas as razões porque sou estranha, são fáceis de explicar.
Gosto de acordar com alguém a cantar no meu ouvido, com um sorriso rasgado no rosto e que me enfrente numa guerra de almofadas, que acabe no chão do quarto extasiado por me amar. Que me faça chorar a rir de coisas idiotas, que passeie comigo à beira mar e se sente na areia num final de tarde só para partilhar em silêncio o pôr-do-sol, ou beber uma bohémia e conversar. Que apanhe comigo umas bebedeiras de cair para o lado e no dia seguinte esteja ao meu lado a beber chá a rir. Que adore dançar as musicas mais estranhas e nos lugares mais mirabolantes e desadequados sem pensar no que os outros estão a pensar... Tanta coisa que gosto e que me esforço por não pensar.