«Nunca é agora entre nós, é sempre até Domingo, até sexta, até terça, até ao próximo mês, até para o ano, mas evitamos cuidadosamente enfrentar-nos, temos medo uns dos outros, o medo do que sentimos uns pelos outros, medo de dizer Gosto de ti.» António Lobo Antunes
12 dezembro, 2011
Caminho
És o longo caminho que percorro, sem saber se regresso.
Sem saber sequer onde me leva, ou o destino que me espera.
Ainda assim, caminho sempre sem hesitar. Transpondo a chuva e o vento, seguindo, alheia a tudo o que me rodeia, há apenas uma direcção - em frente.
Caminho sem parar. Por vezes corro, de olhos abertos ou fechados, não me importa o rumo, não me assusta o silêncio. Porque há neste caminhar errático, viciado, um conforto ou alento. Como se, na surdez do escuro, uma voz chamasse por mim em segredo. "Doce", chama-me doce, numa voz grave e calma. Pressinto-a de repente dentro de mim, tão íntima, e acredito que está perto.
É nessa altura que corro desenfreada para alcançar o calor do seu corpo, o aconchego do seu peito. Mas a voz foge-me escorregadia, movediça, por este caminho interminável, a voz vadia de lugar certo. E com a sua ausência e inconstância, ela tortura-me, dilacera-me.
É nesse instante abandonado que a sinto novamente longe, distante, quando a pensava tão perto.
Uma voz mágica, encantadora, que alimenta o sonho, a fantasia e o desejo.
Um caminho longo, sinuoso, que percorro cega sem regresso.
09 dezembro, 2011
Frio de ti
Tenho medo do nosso Inverno.
Do vento gelado que rasga o rosto, da chuva que se entranha no corpo débil,
toda a sensação de melancolia, de vazio.
Recordo, com nostalgia, o fogo que nasceu no Verão, ardeu intenso no Outono ameno e que, a qualquer momento, sem percebermos, pode-se extinguir no frio do Inverno.
Tenho medo do nosso Inverno.
De perder o calor do nosso encontro, dos corpos despidos de segredos entregues na areia à beira-mar. Tenho medo de me perder de ti, de te perderes de mim. E na distância, vivermos sufocados por tudo o que poderia ter sido e não foi.
Não sei se por nasceres em mim no Verão, me incendeias. Como uma chama que arde de mansinho no meu peito, alimentada pelo calor das palavras com que me vicias e confortas. Entre nós há uma fogueira acesa hipnotizante. Soltam-se labaredas perigosas quando me envolves num beijo e atiças em loucura tudo o que não vivi. Acho que é isso: aqueces-me.
Tenho frio de ti.
07 dezembro, 2011
O Toque
do Nanowrimo
Não basta tocar para sentir, é preciso amarrar os olhos e soltar a alma para
deixar a pele transpor a barreira do óbvio e encontrar a verdadeira
sensibilidade. Sentir é a única forma de estar vivo.
(...)
Numa
parede junto ao pianista encontrava-se uma tela quadrada, talvez 90x90cm, com
traços e relevos irregulares. “Provavelmente uma mistura de técnicas”, pensei
sem dizer uma palavra. À primeira vista parecia-me um jogo de sombras
abstracto.
-
O que vês? – Os seus olhos brilhavam por detrás dos óculos finos de armação de
metal.
-
Ahh… - Hesitei nervosa como se estivesse de repente numa prova oral - Não sei
bem…
-
Não tenhas pressa, podes tocar.
Fugiu
para trás de mim, tapou-me os olhos com uma mão e com a outra agarrou-me na mão
esquerda conduzindo-a de encontro à tela.
A
pele suave das suas mãos nos meus olhos fechados contrastava com a mistura de
rugosos, granulados e pinceladas lisas da tela. Tacteava, ondulando com a mão dele
por cima da minha percorrendo toda a tela. Tudo aquilo, o inesperado e
imprevisível da situação, acelerou-me o peito entre a confusão e o medo.
-
O que viste? – Perguntou novamente, destapando-me os olhos e largando-me a mão.
Como
se os meus olhos vendados vissem através das minhas mão.
-
Pele - saiu-me assim sem pensar - pele suave.
Contemplou-me
com um ar sério por minutos que pareceram eternos. Finalmente as feições dele
assumiram um sorriso meigo, com umas covinhas no rosto que lhe conferiam um ar
engraçado.
-
É isso mesmo. São vários corpos entrelaçados, vestidos apenas de pele.
Respirei, num misto de alívio e estupefacção, com a minha súbita sabedoria no campo da
pintura.
Voltámos
para a mesa e ele explicou-me que os relevos permitiam dar forma aos corpos,
transmitindo intensidade aos que estariam em movimento ou agitados.
Perguntei-lhe ainda porque eram peles despidas, qual era o significado. Tirou
os óculos, colocando-os em cima da mesa.
-
Porque a roupa é uma barreira a qualquer forma de sentir. Por exemplo, consegues
sentir o gelo assim? – Esbarrou um cubo de gelo que tirara do seu copo por cima
do meu pullover com uma camisa por baixo.
Abanei
a cabeça, confirmando o que dizia. Quando de repente ele se debruçou sobre a
mesa e atirou o cubo para dentro da minha camisa fazendo-me levantar num salto.
-
És louco! – Guinchei entre o irritada e espantada.
- Reagiste, vês? – Sorria – Só a pele permite sentir, conhecer algo na
realidade.
05 dezembro, 2011
Sorrir
Sinto quase um dever de sorrir. Sorrir sempre.
Mesmo que me envolva um vazio imenso, cinzento, ainda que a incompreensão se instale no mais íntimo de mim, de tal forma torne a minha visão turva incapaz de distinguir a realidade do sonho.
Sorrir é uma espécie de escudo que carrego, é a concha onde me recolho para não sentir a erosão do tempo, das impossibilidades que ferem como flechas disparadas do céu.
Num sorriso carrego o alento do meu mundo sonhado e, inebriada nele, esmago tudo aquilo que não quero sentir. As dúvidas, as incertezas, as desilusões. Todas diluídas num rasgar de lábios que se basta a si próprio. Capaz de segurar o corpo trémulo contra as intempéries que o sacodem no ar. Rasgam-se os lábios, num movimento ritmado, cíclico, previsível. Quase tão natural como respirar.
Sempre que morres, morro também mais um pouco. Ainda sim, o sorriso sobrevive, sempre, porque eu mereço sorrir.
Não dá
«Não dá» disse-lhe por entre frases desconexas, desencontradas e sem sentido.
O quê? Ela não sabe, nem perguntou. Ele também não. Nem porquê ou como. Mas disse-o.
Soltou-se entre frases perdidas. Ambos sabem que os caminhos por onde andam não se irão cruzar mais. Que o mundo gira para o lado contrário sem parar e um vento forte os afasta.
E tudo se resume num «como estás?», e uma resposta evasiva simultânea «não muito bem». Um silêncio profundo, dorido, incapaz de ir além.
Seguem-se frases a jorrar palavras sem sentido. É preciso gritar estas palavras ocas até que os ouvidos doam e rasguem a pele. Fingir o impossível, na impotência de tudo o que se quer e não se tem.
«Temos de falar» disse-lhe num turbilhão de emoções tanto tempo contidas, prestes a explodir.
Falar de quê? Para quê? Pergunta-se na imensidão de vazio que lhe deixou, no silêncio abrupto onde a encarcerou sem explicação.
Porquê agora? Hoje? Neste momento?
Agride-a, certeiro com uma pedra na cabeça. E, ainda em transe, tudo à volta treme, o chão foge, por momentos perde a direcção.
«Um tempo», ela tinha pedido, lembra-se, um tempo de vida que ele não esperou.
«Não dá» zumbe-lhe aos ouvidos como se fosse a resposta ao seu pedido, aquela que tardou. Abrasiva, chega-lhe agora aos ouvidos desprevenidos, arranha-lhe a alma moribunda e suga-lhe uma réstia de vida do corpo que resvala, pelo abismo, sem precaução.
30 novembro, 2011
Chegar a ti
Digo para mim que talvez seja uma questão de altura.
Nem sempre estamos no mesmo patamar. Tu és alto, eu sou baixa. Há cerca de dois palmos de centímetros que nos separam. Dois palmos que fazem toda a diferença.
Por vezes olhar para cima causa tonturas e náuseas. Acredito que olhar para baixo provoque vertigens assustadoras. Digo que é mesmo assim, é uma questão de nivelamento. Tu não me vês, eu não te vejo.
Eu nem sempre aguento estar de bicos de pés para acompanhar os teus olhos. Compreender-te, ver o mesmo que tu, do teu ponto de vista, o teu ângulo.
Tu nunca experimentaste baixar-te, ver as coisas daqui. São diferentes sabias? Mas nunca sequer tentaste. É tão mais fácil esperar que alguém chegue a ti, te mime e te ame.
Aí do alto onde vives, é um mundo de sedução, completamente novo para mim. Subo-te sequiosa, ramo a ramo. Sou eu sempre que subo, sou também eu que me arranho. Ainda assim, nunca digo «não» e aceito cada desafio de subida que alcanço.
Chego ao alto do precipício, limpo o sangue das feridas e deixo-me possuir pelo encantamento do teu beijo. Ainda que as pernas me tremam de cansaço e exista uma dormência permanente, como se estivesse em pontas o dia inteiro. Eu aguento. Tenho aguentado sempre, as tuas horas vagas, os caprichos e ensejos.
É assim que chego a ti, com dificuldade, não nego. Porque sabes-me a vida, o sabor ácido do desejo.
29 novembro, 2011
Eu salto!
- Eu salto! E tu?
No final é tudo um desafio.
Quem vai ter coragem de saltar? Será que um vai sentir medo naquele segundo, vai hesitar?
- Eu salto! - Repetia com o trepidar da adrenalina a pulsar nas veias - Nem que feche os olhos, eu quero saltar!
Toda uma vida decidida num único salto. Lá em baixo um abismo enorme, infindável, era o paraíso sonhado, pronto para os abraçar. Enquanto o seu corpo ao vento, lá no alto, assustado e impaciente, ansiava voar.
Olhava para ele nos olhos fixamente, com aquela força que move rochedos, com a certeza, tão incerta, de que ele a iria acompanhar. Ele saltaria com ela, convencia-se, torcendo-se de pânico por dentro. Ainda assim, preparava-se determinada, chegava-se para a frente com cuidado, e respirava fundo para se mentalizar.
Era «o» salto, o único que podia dar. Um mergulho de cabeça, no escuro imprevisível. No prazer do momento, não imaginava sequer onde iria aterrar.
Mesmo assim arriscava tudo por aquele momento mágico. Um salto a dois, cúmplice do destino, não existiria nesta vida outra oportunidade igual.
Pediu-lhe para saltar de mãos dadas. Chegou-se o seu corpo quente para junto dele e sussurrou-lhe baixinho para nunca a deixar escapar.
No final é tudo um desafio.
Os desejos são os mesmos, mas a capacidade de cada um é diferente para os realizar.
Ela saltou, de olhos fechados, para o vazio imenso. Ele soltou-lhe a mão, não conseguiu saltar.
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