11 janeiro, 2012

Sorrir


Tenho quase o dever de sorrir sempre.
Ainda que me assole a maior tempestade, me doa o estômago de incompreensão, arda o peito de tristeza e impotência. 
Ainda que os músculos faciais tremam e teimem em ceder – há, em mim, um dever de sorrir. 
Porque o sorriso é a única arma que possuo. E acredito nela, convicta que derrubará gigantes e dragões, crente que iluminará o túnel mais longo e escuro e afastará todos os fantasmas e medos.
Sim, o meu sorriso aberto. Ele é o revolver que dispara, a espada que corta, o arpão que fere. É também o escudo que defende, o abrigo que protege, a concha que me recolhe do mundo.
Para lá do meu sorriso, há um labirinto imenso de contradições, uma desordem de pensamentos movediços, desconexos, agitados. Há fantasia e ilusão. Há inconstância e insatisfação.
Pensar é o acto mais solitário e masoquista.
Eu, sorrio sempre.



10 janeiro, 2012

Quanto vale?


"Olhando para trás talvez me tenha esmerado por ser coleccionador de nuvens (...).
Só descobrimos o tempo à medida que o perdemos. E, sendo assim, como se pode agarrar uma ilusão? (...) quanto vale o amor quando se esconde de nós?" Eduardo Sá


Esconde-se em mentiras, medos, esquecimentos, promessas ridículas e falsas intenções. De uma forma ou de outra o amor esconde-se, dissolve-se no tempo, e quando olhamos para trás vemos, atónitos, a mais pura ilusão.
Quanto vale o amor então?

08 janeiro, 2012

Uma vida inteira




É aqui, nesta montanha, que estarei à tua espera. Como sonhavas, numa casa de madeira com um rio lá mais em baixo para pescares.
Acendo a lareira, para que o corpo não arrefeça na ausência do teu. Ponho água a ferver para um chá e escuto o silêncio que me invade da calma lá de fora. É tão poderosa a memória, quando não se quer esquecer. Mas o tempo acalma a ansiedade, suaviza a dor de tudo o que ficou por viver.
Aqui não tenho relógio nem aponto os dias que vão passando numa correria. Quando acordo, abro os olhos  maravilhada com a natureza que me abriga, sei que é dia! Mais logo escurece e as estrelas visitam-me com o seu esplendor, "é noite", já sei de cor.
Nos intervalos minúsculos em que a vida não avança, permito-me imaginar onde estarás nesse momento, a quantos milhares de quilómetros de tempo, questiono-me se ainda virás, se será capaz o destino de nos juntar novamente. Sacudo a cabeça incomodada. O intervalo acaba bruscamente, antes de reparar na pele das mãos engelhada.
Um dia chegarás como combinado. Sentas-te ao meu lado no alpendre, com um cigarro na boca, dizes simplesmente com a tua voz aveludada "o que fazemos para o almoço?". Eu sorrio e finjo que não te esperei todo aquele tempo, uma vida inteira sem perceber. Sento-me ao teu colo como uma criança, enrolo-me nos teus braços que me enlaçam e sussurro ao teu ouvido "o que tu quiseres".



06 janeiro, 2012

Transparente



É tão fácil dizer “amo-te” que torna banal o amor. Não aquele entre amigos e família, que esse não interessa à mais eloquente poesia. O outro. O romântico e louco, que os poetas recitam sobre dois seres que se entregam de corpo e alma para todo o sempre. Como se o “sempre” fosse algo atingível.
Quando oiço essa palavrinha arranhada digo para mim que esse Amor é estúpido. Depois reconsidero, não é o amor, são as pessoas. Aquelas que mais proclamam tamanha loucura. Há quem ame tudo, a toda a hora, de boca cheia e peito inchado de orgulho. Desde a formiga que passa em carreiro pela cozinha, até a cozinheira do restaurante onde almoça todos os dias. E, olhando bem nos olhos baços dessas pessoas, apenas sabem que amar é um verbo e que só o conjugam na primeira pessoa.

[Há um homem que vai de bicicleta comigo todos os dias no comboio. Conheço há anos, o seu colete florescente e cada traço do seu rosto enfiado num capacete. Já lhe perguntei as horas apenas para ouvir a sua voz. Gosto de o ver pela manhã, contempla-lo a sair no Cais do Sodré de bicicleta na mão. Era capaz de o observar um dia inteiro, tomar um café com ele e perguntar-lhe o que quer da vida neste mundo dormente. Gosto estupidamente dele. Não o amo.]

Foram poucas as vezes que disse “amo-te”. Porque foram também poucas as vezes que realmente amei alguém, mas não lamento. Quando amei fui estupidamente verdadeira. Não duvido que quando disse “amo-te” por palavras e gestos, saiu límpido dentro de mim, como a certeza mais pura. Talvez tenha amado pouca gente, quase ninguém, mas quando o fiz, não gastei a palavra em vão. Fui autêntica, transparente.
Não respiro na opacidade da mentira.



04 janeiro, 2012

Caminhos paralelos

«Linhas paralelas que não tardaram a encontrar-se, porque a vida não é assim tão geométrica» Mário Zambujal



Então está combinado. Eu sigo por aqui, tu segues-me de perto. Mas seguimos os dois na mesma direcção. Posso ver-te, tocar-te, sentir a tua respiração rente ao meu pescoço e o calor da nossa intimidade.
Já não penso como antes. Convenceste-me com o carinho do teu abraço, o deslumbre das tuas palavras e a insanidade envolvente dos teus beijos. Hoje não quero mais cruzamentos que atravessem a alma, a atropelem bruscamente para depois seguirem rumos opostos.
Quero seguir a teu lado. Na constante euforia que me veste, mas sorrindo com a calma que aparentas. Sei que por dentro ardes como um vulcão pronto a explodir a cada instante, de loucura, desejos e medos. Nessa altura acompanho-te, afago o teu rosto inquieto e deixo-te repousar no meu peito. Sou agora a calma que te encontra submerso, o brilho que te puxa do escuro. Por vezes com uma gargalhada, porque a vida não pode sempre ser levada a sério. Mordo-te o lábio e percorro-te o pescoço, vicio-me no teu cheiro, no teu sabor. Estás aqui, mesmo ao meu lado, no caminho paralelo. Como o corrimão de uma ponte imensa que percorremos juntos, para nos encontrarmos lá ao fundo onde a geometria quebra as suas regras.



02 janeiro, 2012

Esta noite



"Psssttttt....faz amor comigo". 
Arranca-me do escuro com a violência de um furacão. Arrasta-me. Leva-me para longe. 
Mesmo que me debata contra o teu corpo robusto, que rasgue a tua roupa, arranhe as tuas costas e irrompa nos teus braços, queimando como a lava de um vulcão. Que o suor entre nós dois seja uma mistura ácida de medo, dor e prazer. Porque a loucura não tem limites, nem pudor.
Luta, se quiseres, contra o ímpeto selvagem que me habita. Domina-me, ou aceita-me assim mesmo, nua de raciocínio, envolta em contradições. Em delírio, a pele embriagada transpira a sede de querer sempre mais, insatisfeita, descontrolada tacteia sem rumo. Ninguém possui ou é possuído. É uma guerra inútil, sem vencedor. Entrega-te e eu rendo-me. Fugimos de nós, do mundo. 
É nessa altura que sussurro-te ao ouvido “Vem comigo”. Esta noite quero voar pelo desejo e perder-me nele como por magia. Faz amor comigo.