20 janeiro, 2012

Querer

"O que se quer

Querer alguém, ou alguma coisa, é muito fácil. Mesmo assim, olhar e sentirmo-nos querer, sem pensar no que estamos a fazer, é uma coisa mais bonita do que se diz. Antes de vermos a pessoa, ou a coisa, não sabíamos que estávamos tão insatisfeitos. Porque não estávamos. Mas, de repente, vemo-la e assalta-nos a falta enorme que ela nos faz. Para não falar naquela que nos fez e para sempre há-de fazer.

Querer é descobrir faltas secretas, ou inventá-las na magia do momento. Não há surpresa maior.
(...)
Uma necessidade ocupa mais o coração durante mais tempo, que uma satisfação. Querer concentra a alma no que se quer, mas ter distrai-a." Miguel Esteves Cardoso


Automaticamente

Hoje sonhei contigo. Estranhamente sonhei contigo.
Estranho, por me lembrar do meu sonho (e que bom que foi contigo). E ainda mais estranho por ser contigo! É que mesmo que te veja quase todos os dias, já faz muito tempo que não trocamos mais do que um "bom dia", sussurrado entre os dentes. Poucas são já as vezes que esboço um sorriso, com medo de encarar o teu. O olhar também já raramente se tranca um no outro, como antigamente. Por vezes sou eu que o desvio, refugiando-o no chão cinzento, outras és tu que o vagueias numa parede vazia qualquer.

Acordei espantada. As sensações eram confusas, contraditórias.
Um consolo desconfortável. Éramos novamente cúmplices de olhares, gestos e palavras.
Não conheço os lugares por onde andámos, apenas que caminhámos abraçados a rir de uma parvoíce qualquer. Daquelas que eu sempre inventei para quebrar entre nós a tensão dos impossíveis. Tu sorrias e acenavas, como sempre fazias. Entravas no jogo e atiravas com outro disparate ainda mais absurdo. Sempre conseguiste arrancar-me uma gargalhada que me anestesiava de tudo o que eu não queria saber! Era essa liberdade que eu amava, de quem não leva a vida muito a sério. A casa pouco mobilada, o frigorifico vazio, a cama propositadamente por fazer. Os dias sem horas marcadas, as viagens à deriva sem planear nada.
Era essa liberdade selvagem que eu bebia de ti, deliciada, todos os segundos que entre gestos, olhares e palavras te consegui ter.
Ao teu jeito, passaste os dedos nos meus lábios, puxando-me o queixo para cima, para que os meus olhos fixassem os teus. Foi então que disseste as palavras mágicas, aquelas que apenas poderias proferir num sonho, as que evaporavam timidamente ao amanhecer: "Gosto tanto de ti". Soletraste devagar, para que eu acreditasse no que nunca conseguiste dizer.
Não me lembro de mais nada. Acordei baralhada. Queria voltar para aquele lugar encantado, conversar novamente contigo, abanar-te, sacudir-te, bater-te se fosse preciso.

Depois vi-te, agora à luz do dia, na distância do presente.
Estavas a 1 metro de mim e apetecia-me explodir, gritar-te que estive contigo esta noite. Mas não consegui.
Tu sorriste sereno. Eu também sorri. Automaticamente dissemos "Bom dia", apenas.

17 janeiro, 2012

Tu-inventado




Há um silencio profundo que se chama "verdade".

"Nunca me perdes com a verdade" disseste-me um dia.
Curiosamente, foi com as verdades que sempre me perdi do que mais queria.

Sei, agora, que não foste mais do que a minha própria invenção. 
A fantasia envolta em sedas que docemente criei, a obra que esculpi com as mãos hábeis da imaginação. Fantasma  de sonhos, perdido em noites de memórias, de medo e solidão.
Queria tanto, mas tanto, que existisses! Era tão ávida de paixão, era tão intenso o meu desejo.


Acreditei-te, com a ingenuidade de uma criança, a simplicidade de um pastor e a cegueira de um errante. Porque assim o quis, porque pintar-te ao meu jeito fazia-me feliz, levava-me para longe, fugia de mim. Não sinto falta de ti-inventado, mas egoisticamente do prazer que me proporcionaste. Dos beijos envolventes imaginados que embriagada bebi, do calor dos teus braços que no escuro da ilusão me enlaçaram, do cheiro que inventei para ti, do sabor do teu tacto. 
Acreditei-te com a fé de um peregrino que caminha confiante sem destino nenhum. 
Mas acreditar exige esforço e continuidade. 
E afinal, tu não existes... 
Apenas vejo a sombra da desilusão trespassar as cortinas do meu quarto. A visão embaciada, o sangue a bombear descompassado e a cabeça rodopia atordoada, não acredita em mais nada. 


Desacreditar é este buraco enorme que escavo em mim, a tristeza que persegue todos meus passos, as lágrimas que dormem teimosas na minha almofada.
É só mais um dia, umas horas, e o sono acabará por chegar de madrugada e sufocar o vazio que deixaste.

Conseguiria eu viver uma realidade fingida? Não, nunca fui por ai.
Tu não existes, eu sei. Foste inventado.


16 janeiro, 2012

Embalar o tempo



Gosto de embalar o tempo com uma canção. Num sussurrar indefinido, carente, desamparado.
Poderia quase chamar-lhe um sonho, se algum dia me lembrasse de ter sonhado. Assim, chamo-lhe canção de embalar.
Sento-me no seu colo e abraço-o contra o meu peito, afago-o num gesto meigo, como se lhe passasse a mão suavemente pelo cabelo encaracolado. Ele é esquivo, furtuito, agarro-o sempre com um beijo inesperado, impulsivo, de quem mergulha sem hesitar. E as línguas dançam aventureiras, enquanto o embalo embriagado no beijo mais intenso que podia cantar. Prisioneiro dos meus braços, ele não resiste. Acompanha o ritmo do meu corpo, docemente, reage ao som rouco que trauteio solitária. Parece nem reparar.
Gosto de embalar o tempo com uma canção, que me acalente a alma e faça voar.
A corda acaba a qualquer momento, para depois recomeçar.


14 janeiro, 2012

Beautiful lie


"E, afinal de contas, o que é uma mentira? / É apenas a verdade mascarada." George Byron

13 janeiro, 2012

Qual azar?

Hoje é 6ª feira 13. Dizem que dá azar... dizem. Não sei quem se lembrou de inventar um disparate destes.
Eu passo por baixo de um escadote, abro o chapéu de chuva dentro de casa e só bato na madeira se for numa porta para entrar... E não, com todos os meus defeitos, não me considero uma pessoa de azar... ok, uns tropeções na rua (muito graças aos saltos que insisto em usar), umas saídas menos felizes em que a minha boca é mais rápida que a razão, uns tiros no escuros que fazem ricochete... pouco mais.

Para mim hoje é, acima de tudo, SEXTA-FEIRA.
Mas para quem tiver algum receio do azar, deixo umas dicas para tornar este dia de sorte:

Partilhar um batido com um bom amigo, colorido ou não 

E se ele não quiser, é porque é parvo, convida-se uma girafa :)


Arriscar um desporto radical, de preferência pedindo ajuda a alguém a que nos apeteça muito estar agarrado :)


Convencer essa pessoa que está-se mesmo cansada e é preciso deitar-se à beira-mar para relaxar


...

Se nada disto resultar, que se lixe, valeu a pena tentar, a vida só interessa se a brindarmos de loucuras! 



12 janeiro, 2012

Esquinas



É quando pensa conhecer bem a rua por onde anda, de tal forma já a calcorreou de olhos fechados e entregou-se a ela sem medo, que lhe aparece uma esquina.
Aquele bico de pedra rude com que abruptamente chocou. Rasgou-lhe a pele inocente e sensível, quebrou todo o encantamento que perseguia. Acordou-a do estado hipnotizante onde mergulhara e feriu-lhe a carne descrente com a destreza de uma lança de ponta fina.
Reagiu, ainda atordoada, olhou para trás incrédula, percorrendo a calçada irreconhecível por onde andou perdida. Questiona-se como chegou até ali, para onde vai de seguida. Encolhe os ombros errantes, já não importa. Aquela rua, uma espécie de sonho falsificado por onde caminhou, termina fatidicamente no silêncio violento daquela esquina cinzenta e fria.
Sacode a cabeça para não pensar, olha em frente e alcança outra rua sem hesitar.
«O que precisas?», pergunta-lhe um desconhecido.
«De uma rua sem esquinas».