17 fevereiro, 2012

Escorregar

Sempre achei que um dos meus principais problemas era escorregar. Ainda assim, abuso estupidamente dos saltos, mesmo nos pavimentos mais complicados, leio a andar diariamente e arrisco-me nos desportos mais prováveis de... escorregar.
Não aprendo a ter medo, não me convenço a mudar. Corre-me no sangue a paixão da adrenalina, move-me o desejo voraz de arriscar o desconhecido, vendar os olhos, suster a respiração, mergulhar.
Não sei ser de outra forma. Mais calma e inteligente, talvez. Mais segura, menos impulsiva. Sou assim.
Não tenho vertigens. Escorrego.
Levanto-me sempre e volto a andar.

16 fevereiro, 2012

Digo eu

Digo-te que não existe isso dos teus beijos. Nem os meus.
Há a tua boca e há a minha.
Na fusão brusca entre as duas, derretem-se os lábios no beijo.
A temperatura aumenta e a pressão enlaça as línguas indomáveis, misturando a saliva transformada de desejo.
Digo-te que não existe isso dos teus beijos. Há fusão.
É tudo uma questão de física.
Digo eu.



08 fevereiro, 2012

Conversar comigo





Não é que as palavras me faltem.
Não é que se escondam, ou que eu as ignore.
Elas soltam-se incontroláveis, vagueiam desamparadas na escuridão do imenso vazio onde procuram o calor dos braços que as abriguem.
Não é que me faltem as palavras, elas jorram sangrentas numa hemorragia imparável, letal. Arrastam-se como um pedinte, esfomeado e sedento, mutilam-se, confortam-se. Matam-se de contradição.
Mais uma vez solto-as e começo embalada. Mais uma vez desisto e não termino.
Recolho-me no meu canto, invisível, perdida em pensamentos confusos, obrigo-me a um silêncio profundo. Uma mudez que consome todas as horas solitárias de insónia. Até o amanhecer sacudir-me o corpo frágil e endurecido. 
Um dia mando tudo aquilo que não te digo. Até lá, guardo as palavras, espalhadas em rascunhos desorganizados, sem sentido. Escuto-as, sempre irritada com o que me dizem. Apago-as, rescrevo-as vezes sem conta, numa batalha campal como se elas fossem o meu pior inimigo.
Escrever sempre foi a melhor forma de conversar comigo.




05 fevereiro, 2012

El sueño





«El sueño

Andando en las arenas
yo decidí dejarte.

Pisaba un barro oscuro
que temblaba,
y hundiéndome y saliendo
decidí que salieras
de mí, que me pesabas
como piedra cortante,
y elaboré tu pérdida
paso a paso:
cortarte las raíces,
soltarte sola al viento.

Ay, en ese minuto,
corazón mío, un sueño
con sus alas terribles
te cubría.

Te sentías tragada por el barro,
y me llamabas y yo no acudía,
te ibas, inmóvil,
sin defenderte
hasta ahogarte en la boca de arena.

Después
mi decisión se encontró con tu sueño,
y desde la ruptura
que nos quebraba el alma,
surgimos limpios otra vez, desnudos,
amándonos
sin sueño, sin arena,
completos y radiantes,
sellados por el fuego.»

Pablo Neruda

03 fevereiro, 2012

Simplicidade



Sou simplicidade.

Cada olhar, cada gesto meu, é impulso e vontade. 
Cada pedacinho de mim, mais íntimo, oscila visivelmente entre a brisa calma de um fim de tarde e o mar revolto em tempestade.
Na minha realidade não há certezas nem designios do destino. Há uma amálgama de dúvidas, comandadas em delírio por desejos irracionais. Momentos doces, calmos, selvagens, mas fieis a mim, ao que anseio nesse instante que vivo sem ilusões do depois.
O depois logo se vê, pensar nele é antecipá-lo. É perder o presente.
Podemos passar à frente? Assim sem porquês e mais nada. Esquecer o complexo das convenções. A tua individualidade e a minha. Seremos sempre dois náufragos de rumos distintos, cruzados em breves momentos.
E então? De que é feita a vida? De momentos.
Sou simples. Podemos passar à frente?


01 fevereiro, 2012

Arranca-me um Sorriso




E assim, do nada, arrancas-me um sorriso.
Inesperado como uma onda gigante num mar calmo, brilhante como o reflexo do sol que eterniza aquele momento divino.
Um simples sorriso. Mágico. Bonito. 
Era tudo o que mais precisava neste instante.
Fazer amor com este sorriso. Envolver-me suavemente nele, entregar-me intensamente, livre. 
Talvez ele emane a beleza pura da poesia, saboreio o doce travo a mel na boca, a sede de te-lo sempre comigo. Deixou-me na pele o desejo, simples, que não reprimo, de ter-te neste sorriso.