«Nunca é agora entre nós, é sempre até Domingo, até sexta, até terça, até ao próximo mês, até para o ano, mas evitamos cuidadosamente enfrentar-nos, temos medo uns dos outros, o medo do que sentimos uns pelos outros, medo de dizer Gosto de ti.» António Lobo Antunes
27 fevereiro, 2012
Espero por ti
No final, és sempre tu.
Do nada, ressuscitas inesperadamente, como um fantasma.
Envolves-me com o sopro da tua absurda sinceridade. Arrasas-me violentamente.
No mais imperfeito juízo, deslaço. E as pontas que segurava com firmeza, caem. Os nós embrulhados desatam-se. Alteras o ritmo do meu peito, o bombear do sangue, até a maneira como falo. Podia dizer que me deixas sem pingo de vida, nesse instante impossível em que te atravessas à minha frente.
Enrolo as palavras com a língua entorpecida e, numa espiral, deixo-me ir embriagada, adormecida. Sem medo.
Bloqueio. Retrocedo. Avanço novamente. Porque nunca soube lidar comigo, na ânsia de te ter. Nunca soube deixar-te, nunca aprendi a esquecer-te.
És sempre tu, no final que eu já vivi.
Apareces do nada, despido de tudo. Largado ao vento, de mãos a abanar. Ali ao fundo, numa estrada qualquer, do outro lado da linha, eu espero por ti.
25 fevereiro, 2012
Paradoxo
"Leia o texto abaixo e depois leia de baixo para cima"
"Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais..."
Clarice
Lispector
24 fevereiro, 2012
pessoas âncora vs sedante
Penso que há pessoas âncora e pessoas sedante.
As pessoas âncora são robustas, atracam-nos à terra. Ajudam a estabilizar o nosso mundo exterior, recebem o nosso corpo como um estaleiro, defendem-nos dos perigos lá fora, da instabilidade dos ventos e tempestades, do frio. São o ponto de equilíbrio, o porto de abrigo. Agarram o nosso destino e traçam connosco racionalmente o caminho.
As pessoas sedante entram em nós devagarinho, esquivas, sem notarmos. Percorrem a corrente sanguínea, libertam uma qualquer substância química no nosso organismo que o faz relaxar. Acalmam-nos por dentro. Ainda que a corrente nos puxe para alto mar, tudo à nossa volta se desmorone num barulho ensurdecedor, e um furacão nos arraste, ainda que elas não consigam encaixar-se na nossa vida, não nos protejam nem sigam ao nosso lado qualquer trilho, elas sedam violentamente o nosso organismo de uma droga magnífica, apaziguam qualquer dor interior.
As pessoas âncora seguram o nosso corpo intermitente mas são incapazes de libertar a nossa mente inquieta que se debate insatisfeita, solitária, no escuro. Impotentes para soltar as nossas fantasias, medos e loucuras. Só as pessoas sedante arrancam-nos a roupa com a suavidade de um beijo e conservam-nos voluntariamente despidos numa paz paradisíaca.
Porque razão nos agarramos sempre a âncoras nesta vida?
22 fevereiro, 2012
Sorte
Sorte
Encontrar-te num fim de tarde, perdido
Resgatar-te o olhar, o sorriso,
Arrancar-te um olá desamparado, tremido
Sorte
Entre a hesitação e a timidez de te abraçar
Recuperar os teus braços gigantes
Envolveres-me inesperadamente como antes
Aquecer-me em ti sem pensar
Sorte
Esquecer o conceito de certo ou errado
Viver a anarquia da contradição
Agarrar-me ao brilho dos teus olhos
E sonhar-te, sem limite ou justificação
Sorte
No ínfimo espaço que nos separa
Onde habita a loucura e o desejo
Deslizar para o teu colo, o meu corpo frio
Encaixar-me suavemente, roubar-te um beijo
Sorte
20 fevereiro, 2012
sei de cor
Quando as palavras despem a minha boca, chamam por ti.
Num murmúrio rouco, alucinado.
Talvez ainda não te tenha arrancado da pele.
E o meu sangue queime as fronteiras da racionalidade.
Mesmo tendo sido a tábua que agarrei para me salvar, a bolha de oxigénio que tornou o ar suportável.
A verdade, é que sinto a tua falta em mim. Corrosiva
E lanço-me na escalada diária de reaprender a viver de novo sozinha.
Procurando outros refúgios, num sonambulismo crónico. Afastando-me do mundo, dos outros, de mim.
Há uma espécie de paz na solidão voluntária, um silêncio dormente, anestesiante, indolor.
Não fujo dele. Conheço-o de cor.
19 fevereiro, 2012
18 fevereiro, 2012
Eu vou
Se me arrancares um sorriso, eu vou!
Fica combinado, sem porquês ou hesitações.
Leva-me onde quiseres. Não me interessa o lugar. Uma montanha íngreme, um mato denso, uma praia deserta ou um telhado inclinado. Não quero saber se vai estar sol, se sopra um vento forte, se vamos à chuva ou ficamos debaixo do céu estrelado. Eu vou!
Mesmo sabendo que essa poderá ser a única vez. Um instante que roubamos à realidade, uma fresta de vida, um rasgo de vontade.
Eu vou!
No calor do momento, peço-te apenas para seres verdadeiro comigo. Seres tu, somente. Esqueceres o mundo confuso lá fora, os quilómetros de gente, a monotonia das relações e das conversas vulgares. Ali, despidos de tempo. Eu e tu, somos iguais. Sofremos do mesmo.
Sem segredos, quero partilhar-te numa conversa sem horas, regras ou rituais.
Dizer-te as coisas mais loucas e irracionais, rir-me do teu ar sério, admirado. Abraçar todo o carinho que me tens dado.
Arranca-me um sorriso e eu vou. Está combinado.
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