15 março, 2012

Podia ter dito


Podia dizer-lhe "olá".

Estava sentado à minha frente, de cabelo desgrenhado, com o olhar perdido no mesmo vidro que eu. Sorri, apenas devolvendo o sorriso dele que, reflectido no vidro, embateu abruptamente no meu.  
Voltámos ao vidro da janela, indiferentes aos grafitis que o riscavam da noite, que corria lá fora veloz, sem nós. Era um olhar vazio, cego, vagueava em vão, não procurava nada. Pelo menos, nada lá fora. A nossa busca era dolorosamente interior. Talvez por isso os olhares cruzaram-se agora de frente, demoradamente, partilhando a solidão. Compreenderam-se, estranhos cúmplices dum silêncio dormente, prenderam-se um no outro por instantes sem hesitação.
Voltei a olhar o vidro baço, como se a minha vida corresse lá fora com a noite, conseguia vê-la passar na escuridão.
"É seu?" - debruçou-se, numa voz rouca, apanhando uma folha do chão.
Estremeci. Ele sorriu. Eu sorri e acenei.
Podia ter-lhe dito "olá". Não disse nada. Saí de repente na minha estação.



13 março, 2012

Do lado de dentro

Há pessoas que ocupam o espaço.
De tal forma parece que as vimos em todo o lado por onde andamos a olhar-nos fixamente, perseguindo os nossos passos, sentindo a sua respiração no pescoço, o cheiro da sua pele.
Aparecem do nada, a qualquer hora do dia, e da noite, sem avisar. Atiram-nos ao chão, num golpe baixo, sempre que o nosso pensamento tenta fugir por um instante. Numa música da rádio, numa expressão que ouvimos na mesa do lado, na forma de andar de um desconhecido que nos interpela num bar.
Entram por nós, colam-se à pele, às paredes do estômago e possuem todos os orgãos vitais. Como um virus, devoram tudo o que restou depois de nos deixarem.

Estás outra vez ali, ao fundo, a caminhar na minha direcção com um sorriso nos lábios.
Indiferente à chuva gelada que escorre pelo teu rosto, abres os braços na minha direcção. Os teus braços, enormes, envolventes. E nessa altura dou por mim a correr descontrolada para a cegueira do vazio, na escuridão de não te tocar. Sei que o teu corpo é agora intangível, uma projecção da minha mente. Volto para trás. Fecho-me no carro e ligo o motor, mas o rádio toca aquela música que ouvimos juntos da ultima vez, neste mesmo carro, agora abandonado, sombrio. É como se me falasses ao ouvido sem eu te poder responder. As memórias atacam-me, desprevenida, com violência assustadora.
"Sai de mim!" grito.
Mas tu não me ouves. Tu não estás.

09 março, 2012

Silêncio




Há silêncio nas palavras
Quando os verbos estilhaçados fecham as frases.
Há silêncio nos gestos
Quando, dormentes, vencidos do hábito
não reagem.
Há silêncio no sorriso
Sempre que repuxado por instinto, 
acaba por magoar.
Há silêncio, 
Um silêncio surdo-mudo, estático, absurdo
como se o mundo parasse de girar.
Oiço a música lá fora, embate violenta no vidro opaco do silêncio, 
resistente, inexpressivo, 
amarrado para não gritar.





08 março, 2012

Find




Se não encontrarem a alma, encontrem uma forma de voltar a por as minhas mini-treta-aplicações do lado direito, ou esquerdo, tanto me faz, deste blog, sim??

07 março, 2012

Manhãs

É nas manhãs que me perco na tua ausência. Enquanto me debato entre a roupa quente da cama e o meu corpo despido de ti. Como um escalpe, a pele arde em carne viva, sangra as memórias do que não vivi. Na cama revolta, o sonho é a realidade inventada, a ponte que transporta o teu corpo para aqui. Abraço-o, na ilusão de uma almofada, inerte, amarrotada. Não sentes nada. Abraço-te de olhos cerrados, porque a luz
fere com golpes de verdade.
O despertador irrompe abrupto no silêncio do quarto escuro, a música grita aos meus ouvidos, abana-me, sacode-me, para recuperar os sentidos. Vejo-me ao longe e sei que estou no limiar entre os mortos e os vivos.


06 março, 2012

Sempre que te encontro

Sempre que te encontro num beijo
Beijo-te.
Inteira, sem hesitações.
Dispo-te, despes-me.
Entrego a minha boca nua na tua,
Largamos a roupa abandonada no chão.
Descalçamos duvidas, desenganos,
Enquanto arde o desejo, pulsa vontade,
na embriaguez desse beijo insaciado,
Indiferente ao que virá depois.
Sempre que te encontro num beijo
Beijo-te
Na insanidade com que me visto
Com a intensidade que incendeia
O meu corpo arrepiado,
estremece a pele, geme paixão.
Beijo-te, em cada curva perdida,
no tempo onde te encontro, onde me atropelas e devoras
Incólume, no cume da explosão.

02 março, 2012

Sobre as coisas que me irritam


Enfarelhei esta coisa aqui. Outra vez.
E não sei se tenho mais paciência para tentar mudar - estúpido blogger!
Para quem passar e reparar que as minhas miniaplicações, whatever, o perfil, o mixpod, o histórico de posts e os blogues que sigo estão bem lá no fundindo (sim, é scroll até lá baixo, cansa eu sei pfff)... NÃO FUI EU que quis assim!
Já queimei as minhas pestanas a tentar mudar e atrofiei todos os neurónios da minha cabeça (e sim, são muitos, temos milhões, aprendi no Museu de História Natural em NY, e eles lá não brincam).
E eu sei que é na treta do Esquema mas não dá, não muda, amarrou o burro assim, kaput, e eu ontem com a neurose estive quase para mandar este blog para o caixote do lixo de vez... Na verdade, o wordpress cada vez me parece mais atractivo ...
Anyway... Vou descansar por uns dias e depois penso se me apetece tentar mudar isto ou escrever aos informáticos do blogger a dizer que são uns idiotas que andam a conspirar contra mim. Sim, um emailzinho a começar assim... "Mr Blogger IT, I have a problem with you, I really hate you!"