28 março, 2012

Sinceramente?



Sinceramente? Não queria mais nada.
O teu colo. Os teus braços. O teu beijo.
A certeza da loucura, a intensidade dos gestos, o êxtase do momento.
A vida a escorrer na pele suada, estremece desejo.
Entregam-se, o teu corpo e o meu. Entrelaçados.
Será que o queres novamente? Será que ainda se encaixam?
Não sei onde estás, mas sei que estás perto. Tão perto.
Queria tocar-te.
Também com as mãos, com os olhos, com a boca.
Rasgar-te a roupa. Invadir-te o tronco.
Espalhar-me em ti, como creme numa pele seca e gretada.
Entranhar-me, ser absorvida, sugada.
Amar-te descontroladamente, sem a prisão do tempo e do espaço.
Onde quer que estejas, quero-te tanto.
Sinceramente? Não podia querer mais nada.
Respirar apenas não basta.



26 março, 2012

Ao contrário



«Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
essa perna é tua?, é teu esse braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra morre.»
Eugénio de Andrade

Quero-te no limite do impossível. Na cegueira da incompreensão. 
Sem direcção. Perdido. Sem nexo. Sem restrição.
Ao contrário.


22 março, 2012

Algo


Talvez sejas tu. Apareces sempre assim, do nada. Sem avisar.
Rompes as paredes do tempo, os muros da distância. Avançasinstável entre labaredas gigantes, por caminhos sinuosos, mas arrebatas qualquer tentativa de te evitar.
Não sei exactamente o que quero, mas sei que quero desesperamente algo.
Talvez seja o cheiro da tua pele, o sabor dos teus lábios, o calor dos teus braços.
Ou aquela gargalhada incontida, só nossa, que a memória insiste recordar. A euforia da chegada, a adrenalina da paixão numa espiral de desejo. As conversas partilhadas de loucura insaciável.
Talvez sejas tu, que persegues os meus passos inseguros
E num caminhar silencioso, atropelas-me de repente só para que eu reaja, te empurre. Te afaste. Me afaste. Para voltar a esperar-te sofregamente, a cada dia que passa, a cada segundo que me faltas.
Não sei exactamente o que quero, mas sei que quero desesperamente algo. 



Dois



«Dois...
Apenas dois.
Dois seres...
Dois objetos patéticos.
Cursos paralelos
Frente a frente...
...Sempre...
...A se olharem...
Pensar talvez:
“Paralelos que se encontram no infinito...”
No entanto sós por enquanto.
Eternamente dois apenas. »

Pablo Neruda

21 março, 2012

Dá-me cor

Dá-me cor.
Aquece-me o corpo num intenso amarelo sol,
torna-o, delicadamente, num laranja tímido ao final do dia.
Deseja-o, a vermelho fogo, que diluis no agitado mar azul escuro,
acalma-o docemente, com os reflexos prateados da lua.
Despe-me o rosa da pele insegura,
Invade de verde os meus olhos perdidos
e procura comigo, pelo castanho da areia,
um lugar transparente, que me esconda do mundo.
E sem hora de regresso, ao asfalto negro do chão,
Deixa-te ficar, sem pressa, nas cores primárias do nosso beijo,
ilumina-me o rosto de branco, traça nele um sorriso.

20 março, 2012

Reinvento-me

A cada dia acordo espantada, num misto de surpresa e desilusão. Do lugar despido onde estava, onde nada via ou sentia, para um zumbido de formas e cores assustador.
Sacode-me o corpo, para que recupere a consciência, rasga-me os olhos a luz para a realidade.
O dia? A vida? A memória de mim?
E a cada dia levanto-me arrepiada, confusa, esquecida, anestesiada.
Uma voz sussurra da cama o meu nome, reconheço aos poucos o que fui. Não sei ao certo, na nudez em que me encontro desamparada, o que ainda restou de mim.
O sol rompe no quarto, aquece-me as costas despidas. Olho, por segundos invisíveis, o tempo à minha volta, no recorte do meu quarto, na forma da minha cama, no desenho do meu rosto na almofada.
Encontro-me a cada manhã, entre a ignorância cega do cansaço, num sorriso firme, decidido, reflectido no vidro da janela.
Levanto-me. Vou reaprendendo tudo de novo a cada passo, respiro fundo e reinvento-me.

(quero uma almofada assim!)

17 março, 2012

Indefinido



Não é amor, não é amizade, não é paixão.
Não é nada que eu já antes tenha sentido. Ou talvez seja de tudo um pouco misturado, num turbilhão desconexo, num cocktail explosivo.
Não digo que seja psicológico, nem limito ao desejo físico. É uma fusão de ambos desregrada.
São os corpos desamparados que se acalmam, o suor que escorre das desilusões, o sabor doce-amargo dos desabafos, a cumplicidade do silêncio e das palavras abraçadas por medos em convulsões.
Não é nada a que eu queira dar nome, quantificar no tempo, medir no espaço ou dar explicação.
Nada que me sufoque ou tente controlar. Nada que eu queira possuir, ou obrigar.
Talvez um sentimento inventado, indefinido.
É um tudo anestesiante e desprendido, servido num colo envolvente onde cabe o meu mundo.
Perfeito por ser fantasiado, irreal por não ser vivido.