«Nunca é agora entre nós, é sempre até Domingo, até sexta, até terça, até ao próximo mês, até para o ano, mas evitamos cuidadosamente enfrentar-nos, temos medo uns dos outros, o medo do que sentimos uns pelos outros, medo de dizer Gosto de ti.» António Lobo Antunes
30 março, 2012
Metamorfose
“A alma é uma borboleta... há um instante em que uma voz nos diz que chegou o momento de uma grande metamorfose...”
Rubem Alves
Inunda-me
Como um dilúvio arrastou-me, numa corrente forte, indestrutível. Sem dar conta entreguei-me, deixei-me ir à deriva. Há um prazer incompreensível sempre que me largo no desconhecido. Não receio o escuro, o frio ou o piso escorregadio. Rejeito qualquer conceito de perigo e respiro inebriada o vento que me rasga o rosto, a chuva que me escorre pelo cabelo, a intensidade com que vida pulsa em mim naquele instante.
Estavas ali, à minha espera, do outro lado da margem. Não hesitei. Inundei-me de ti.
Estavas ali, à minha espera, do outro lado da margem. Não hesitei. Inundei-me de ti.
29 março, 2012
Equilíbrio
Como se a felicidade estivesse fechada dentro de potes de vidro transparente, arrumados num móvel alto.
É preciso uma escada, uma corda ou um banco para os alcançar.
É preciso subir sem medo de olhar para baixo, esticar os braços trémulos, balançar o corpo relutante. Sem hesitar, segurar a prateleira com firmeza, mesmo que ela abane, que os pés instáveis não toquem o chão, não pensar em mais nada. Apenas naquela felicidade ali fechada, à espera do equilíbrio certo para lá chegar.
É preciso uma escada, uma corda ou um banco para os alcançar.
É preciso subir sem medo de olhar para baixo, esticar os braços trémulos, balançar o corpo relutante. Sem hesitar, segurar a prateleira com firmeza, mesmo que ela abane, que os pés instáveis não toquem o chão, não pensar em mais nada. Apenas naquela felicidade ali fechada, à espera do equilíbrio certo para lá chegar.
28 março, 2012
Ainda
Ainda não aprendi a encontrar-te
A partilhar o mesmo espaço.
O cubículo do elevador, a distância da secretária, a largura do corredor.
Vejo que o tempo não dilui o que ficou congelado
e os olhos, baços, ainda embatem enfurecidos
e os lábios, sedentos, ainda sentem, como se beijassem.
Espasmos que nos aprisionam em segundos intermináveis
Imóvel, não encontro o gesto certo, a palavra exacta.
Não importa. Há o silêncio, asfixiante, que nos arrasta.
Eu não aprendi a encontrar-te.
Ainda.
A partilhar o mesmo espaço.
O cubículo do elevador, a distância da secretária, a largura do corredor.
Vejo que o tempo não dilui o que ficou congelado
e os olhos, baços, ainda embatem enfurecidos
e os lábios, sedentos, ainda sentem, como se beijassem.
Espasmos que nos aprisionam em segundos intermináveis
Imóvel, não encontro o gesto certo, a palavra exacta.
Não importa. Há o silêncio, asfixiante, que nos arrasta.
Eu não aprendi a encontrar-te.
Ainda.
Sinceramente?
Sinceramente? Não queria mais nada.
O teu colo. Os teus braços. O teu beijo.
A certeza da loucura, a intensidade dos gestos, o êxtase do momento.
A vida a escorrer na pele suada, estremece desejo.
Entregam-se, o teu corpo e o meu. Entrelaçados.
Será que o queres novamente? Será que ainda se encaixam?
Não sei onde estás, mas sei que estás perto. Tão perto.
Queria tocar-te.
Também com as mãos, com os olhos, com a boca.
Rasgar-te a roupa. Invadir-te o tronco.
Espalhar-me em ti, como creme numa pele seca e gretada.
Entranhar-me, ser absorvida, sugada.
Amar-te descontroladamente, sem a prisão do tempo e do espaço.
Onde quer que estejas, quero-te tanto.
Sinceramente? Não podia querer mais nada.
Respirar apenas não basta.
26 março, 2012
Ao contrário
«Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
essa perna é tua?, é teu esse braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra morre.»
Eugénio de Andrade
Quero-te no limite do impossível. Na cegueira da incompreensão.
Sem direcção. Perdido. Sem nexo. Sem restrição.
Ao contrário.
22 março, 2012
Algo
Talvez sejas tu. Apareces sempre assim, do nada. Sem avisar.
Rompes as paredes do tempo, os muros da distância. Avançasinstável entre labaredas gigantes, por caminhos sinuosos, mas arrebatas qualquer tentativa de te evitar.
Não sei exactamente o que quero, mas sei que quero desesperamente algo.
Talvez seja o cheiro da tua pele, o sabor dos teus lábios, o calor dos teus braços.
Ou aquela gargalhada incontida, só nossa, que a memória insiste recordar. A euforia da chegada, a adrenalina da paixão numa espiral de desejo. As conversas partilhadas de loucura insaciável.
Talvez sejas tu, que persegues os meus passos inseguros
E num caminhar silencioso, atropelas-me de repente só para que eu reaja, te empurre. Te afaste. Me afaste. Para voltar a esperar-te sofregamente, a cada dia que passa, a cada segundo que me faltas.
Não sei exactamente o que quero, mas sei que quero desesperamente algo.
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