Há pessoas-verão. Capazes de nos aquecer o corpo mesmo à distância. Tornar azul o céu cinzento de nuvens, rasgar a chuva num colorido arco-íris gigante.
Não sei se essas pessoas trazem com elas o verão, se o transpiram na pele ou o carregam no sangue. Sei que contagiam a nossa alma fria, carente, com um sorriso dourado brilhante. E é com palavras quentes que nos embalam, percorrem e incendeiam. Para depois nos refrescarem com o sal do desejo. Despem os sentidos ali mesmo na areia, seduzidos pelo aroma da maresia, viciados no calor do seu beijo.
«Nunca é agora entre nós, é sempre até Domingo, até sexta, até terça, até ao próximo mês, até para o ano, mas evitamos cuidadosamente enfrentar-nos, temos medo uns dos outros, o medo do que sentimos uns pelos outros, medo de dizer Gosto de ti.» António Lobo Antunes
21 junho, 2012
18 junho, 2012
look up
Disse-lhe um dia que a felicidade era como um lugar perdido no outro lado do arco-íris.
Um dia encontrava o caminho, chegaria a sua vez. Era como um lugar encantado, entre o sol e a chuva, nem sempre se via com nitidez. Mas era preciso acreditar nele com fé, olhar para cima, sempre. Com paciência e atenção. Seguir persistente, o rasto infinito de cores, sem perder a direcção. E nesse percurso difícil, onde a luz do tempo encandeia a visão, manter-se firme, sem medo. Enfrentar qualquer perigo, sem olhar para o chão.
11 junho, 2012
Lugar do coração
Perguntas-me se acredito em destino. Eu abano a cabeça, num movimento instintivo que não vês, e digo-te que acredito. No nosso destino. Nos lugares traçados por rotas incertas, sem data marcada, sem coordenadas de tempo e de espaço. Assim é o nosso mundo aos meus olhos, um oásis perdido no imenso deserto.
«Precisava ouvir-te» dizes, como se as palavras tocassem. Cobrissem o corpo sedento dos lábios macios, contagiassem a pele com o teu cheiro. E naquele instante em que as palavras me abraçam, num tom quente aveludado do teu beijo, sinto que estás mesmo aqui a meu lado, parece que te vejo. Nuns minutos que nos seguram as vidas, onde as promessas são meros desejos, a vida pára na tua companhia e eu fraquejo. Porque és tu que me enfeitiças a alma, que me quebras o peito. Em qualquer parte do globo onde estejas, não há limites para a distância. És tu, sempre tu desse lado da estrada onde não te alcanço. Como se te buscasse de olhos vendados numa cegueira constante. E tu, sonhador incorrigível, acreditas nesse nosso destino plantado no topo de uma montanha. Onde habitam todos os sonhos impossíveis, onde um dia nos encontramos. Nesse lugar escondido do mapa, tu dizes que me esperas porque me amas.
05 junho, 2012
quando as palavras falham
Acho que é mesmo assim, quando falham as palavras.
Sentam-se sozinhas, num banco abandonado, à beira de um precipício. Ficam ali, num estado híbrido entre a morte e a vida. Arrastam-se cansadas da realidade, alcoolizadas de orgulho.
Quando as palavras falham, falha também os gestos, a vontade, a emoção. Inanimadas, vegetativas. Perdem a cor, desbotada por golpes sangrentos da alma ferida. Derramam verdades incómodas, tatuam decisões ridículas. Masoquistas perpetuam a dor.
Assim são as palavras quando falham. Esdrúxulas, insanas, ambíguas. Escorregam por caminhos sinuosos, escarpados, que lhes rasga a pele fria. Perdem-se em pensamentos desconexos, contraditórios, imprevisíveis. Dementes, cegam o riso, sufocam o instinto. Num medo persistente que as afasta do que consideram perigo. Isolam-se, barricam-se, num cómodo vazio, onde o claro e o escuro não se distinguem. Enquanto a vida acontece ao virar de cada esquina e as palavras gastas, enclausuradas, se esgrimem em monólogos prolixos.
Acho que é mesmo assim, largamos o corpo num banco, sozinho, quando as palavras falham sem sentido.
02 junho, 2012
29 maio, 2012
Pssstt...
Pssstt, não abras os olhos.
Digo enquanto afago o teu rosto e sussurro-te ao ouvido "Bom dia Amor".
Sou eu quem te acorda assim, bem de mansinho. Percorro com a boca o teu pescoço, deslizo pela tua barba rala que me arranha. Subo desenfreada por ti acima, como num labirinto, onde te encontro sozinho, fugido do mundo. Perdidos, entre a magia do sonho, eu não te confundo. E espero, num golpe de sorte, que reajas ao meu toque, sem que a luz do dia agrida os nossos corpos aqui despidos de rotina. Amantes ébrios em momentos fugazes de desejo, incontrolado, insano. Percorro-te e beijo-te. Um beijo molhado, onde te seduzo e saboreio, trinco levemente o teu lábio, desenho-o suavemente com a língua. Quero-te agora, neste instante. Com a fome desvairada de um pedinte, anseio a tua pele quente, onde me encaixas, num puzzle de duas peças, perfeito. Puxas-me com firmeza as pernas nuas que te enlaçam, agarro-te com as mãos o rosto. Entre nós escorre saliva, arde suor entre os nossos corpos.
Pssstt, não abras os olhos.
Sente o aroma do desejo.
23 maio, 2012
Instante
Perguntas-me «quando?» E não tenho resposta. O tempo é uma medida ingrata, distorcida.
Digo-te «agora», «este instante», enquanto te perdes num labirinto escuro, numa espiral de contradições. Em círculos vives a cegueira do imprevisível, a ansiedade do querer e não poder. Perdes-te de juízo, dúvidas e complicações. Perdes-te e eu já não te encontro, não te vejo, não te desejo. No instante nosso que passou sem perceberes. No olhar que te despiu e fugiu de raspão, no toque da mão que arrepiou o corpo de prazer, no sorriso que te beija com timidez. Passou o nosso instante mais uma vez. E as perguntas persistem por entre o encaixe perfeito dos corpos que se descobrem num sonho, repetitivo, meu e teu. Surge sempre "o depois" que persegues sôfrego, como um muro alto que nos separa e afasta, onde embato estilhaçada e desisto de te procurar. Onde somos inevitavelmente dois. Perde-se o momento em que te quero, sempre o agora, neste instante. Afogado em perguntas que não respondo, não me perguntes, não me interessa, o que vem depois.
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