08 novembro, 2012

Ainda



Ainda se cruzam nos corredores durante o dia
entre encontrões de vultos apressados e barulhentos
Raspam os olhos um no outro, sedentos,
Incomodados.
Ironicamente, trocam palavras automáticas de cortesia
- "Bom dia!" - esboçam sorrisos plásticos, ensaiados
Perguntam sem esperar resposta - Tudo bem?"
E continuam o seu caminho, sem ouvir ninguém.

"Ainda mexes comigo"
Grita num gemido mudo, dormente
enquanto a pele arrepiada recorda sequiosa
o perfume
o calor do seu corpo.
Quer abraça-lo agora, dizer algo diferente
mas, mais uma vez, não consegue.

Ele não recua, orgulhoso,persistente
continua o caminho programado
e desaparece num elevador de repente
Já sozinho,
respira aliviado, longe do perigo
Encolhe os ombros resignado,
Admite confuso:"Ainda mexes comigo".


02 novembro, 2012

Caçadora de sonhos




Olhando para trás,
Talvez eu tenho sido sempre uma caçadora de sonhos.
Gigantes e impossíveis.
Talvez tenha perseguido fantasmas toda a minha vida
Numa teimosia cega, numa fé desmedida.

Reconheço que não fui, por um único instante, sensata.
Profeta de histórias felizes, ilusões audazes.
Corri de forma compulsiva e olhos vendados, em busca do inusitado.
Nunca sobe viver tranquila apenas num lado da estrada, constante.
Agradam-me as alterações repentinas do vento,
As bifurcações imprevistas, a velocidade ultrapassada.

Olhando para trás,
Tenho sido coleccionadora de memórias invisíveis.
Como o sorriso dos teus olhos, o calor dos teus braços
A tua voz a dissertar todos os nossos impossíveis.
Sei que reencontrar-te foi o meu sonho mais masoquista,
Delírio puro, intoxicante.
Sempre fui uma caçadora de sonhos,
E, no limiar da loucura, talvez eu ainda espere por ti, na berma da estrada,
no meu sonho mais errante.

08 outubro, 2012

Apneia



Deixa-me falar sobre o limite sensível.
O momento em que os meus olhos cruzam os teus desprevenidos. Entregam-se, prisioneiros de um desejo antigo, incontrolável.
As palavras, mudas, refugiam-se do perigo num silêncio imperturbável.
Tu avanças, eu não recuo.
Numa espécie de hipnotismo, amarras-me. Perco a orientação, o controlo da estrada.
O piso entre nós é curto, escorregadio, a inclinação é voraz.
Derrapo instintivamente no teu colo assustada.
Envolvem-me as tuas mãos, os teus braços.
Inalo o aroma do teu perfume, o calor da respiração acelerada.
Os teus olhos deambulam agora perdidos nos meus lábios trémulos, inseguros.
Continuo ali, confusa, paralisada.
Tu avanças, eu não recuo.
Porque os teus olhos prendem-me, ou eu prendo-me nos teus olhos extasiada.
Este é o meu limite sensível. Uma apneia da realidade.
Tenho evitado pensar em ti. E instintivamente sonhar-te.


21 setembro, 2012

Falta

Talvez seja mesmo assim que te sonho.
Apareces num fim de tarde apagado e sentas-te em silêncio ao meu lado, enquanto as ondas se espreguiçam na areia e riem de nós baixinho.
Vens com duas cervejas na mão, sorris embaraçado e brindamos no ar ao imenso infinito.

Depois cercas-me as costas sem eu notar, os teus braços amarram-me, quentes, protegendo-me do vazio. Conforto-me neles deliciada, a pele sucumbe arrepiada e quero acreditar que é do frio.
No silêncio gelado, rompem assustadas as palavras,surgem tremidas
- "o que sinto falta?" pergunto num sibilo contido.
Cheiras-me o cabelo, beijas-me o pescoço e só então respondes sem hesitar ao meu ouvido
- "cumplicidade".

Recolho o corpo inteiro nos teus braços e sonho, dolorosamente, ficar ali contigo.



05 setembro, 2012

Consciência

Há dias abandonados.
Povoados de sofrimento e inquietação. Um fantasma, uma casa assombrada. Onde as paredes estremecem. O chão de madeira gasta range, as luzes apagam-se fúnebres no velório da solidão.
Até a chama das velas se encolhe ante o peito que arde em violência, irado, derrama uma lava brilhante de vulcão.
O espectro moribundo, habita a gaveta da memória. Um espaço minúsculo trancado, revolto, desarrumado na incompreensível anarquia da emoção.
Atrevo-me a dar-lhe um rosto, um corpo e até um nome. Uma forma de andar desengonçada, uma voz aveludada meiga. Pormenores que tatuam a alma abandonada. Resquícios do tempo que passou por mim apressado, trilhos distantes em quilómetros de desilusão. Reconheço, entre a surpresa e a dor, que sou eu mesma, o fantasma. Ele possui-me, habita-me numa estranha calma. Sorri.
São dias aprisionados, na insuportável realidade. Acordo com a lembrança dolorosamente clara, da vida que ainda não vivi.

(um repost meu antigo, remendado, remexido, ficou igual...)

12 agosto, 2012

Fagulhas





É como se da minha cabeça só saltassem perguntas. Como fagulhas de um lume que não se extingue. Queimam quando raspam a pele fria e eu sacudo-as por instinto. Elas vão ficando espalhadas pelo caminho, acesas, com as pontas a arder. Assim são as perguntas, inflamáveis, por responder.
É isto que quero da vida? Seria feliz de outra forma? 
Fecho-me no meu casulo. Não encontro respostas.
Olho de relance o corpo moreno, torneado, perfeito. Ainda me deslumbro em cada pedaço que percorro de prazer e desejo. O aroma da pele suave. Esse corpo perfeito. Aqui à minha frente, ao meu lado, ao meu alcance. Num desencontro perpétuo de companhia, em monólogos de conversas vãs. É o que tenho. O corpo, apenas. A cumplicidade, tão perto e tão distante.


03 agosto, 2012

Conversar

Sinto falta de conversar. É um vazio medonho, profundo. Rasgo as paredes do cérebro com as palavras que sucumbem no escuro. Não as consigo evitar, elas rompem descontroladas em monólogos loucos, frustados. Sacodem-me o corpo letárgico, instalam-se numa fúria doentia. Essas mesmo, as palavras que trocávamos viciados noite e dia. Procuram uma porta, um caminho, trepam o parapeito da janela e lá ao longe, na noite fria, a lua redonda, brilhante, parece que lhes sussurra baixinho. Talvez seja ilusão da minha mente, as vozes que escuto nas lembranças de outros dias.
O tempo passa rápido, tão rápido, e eu ainda te trago comigo. Habitas-me de alguma forma incompreensível. Não me perco a pensar nisso. Apenas perco-me em memórias, das conversas deliciosas, intermináveis, que já não tenho contigo. Há tanta coisa amarrada no meu peito, duvidas que me assombram, medos que me gritam. Continuo insegura, eterna insatisfeita. Tenho um orgulho sufocante, sabes disso. Mas faltas-me, admito, bastante. Também o teu beijo, o olhar, a cumplicidade, o carinho.
Hoje olhei para este chapéu de palha, o mesmo de outros tempos, que dizias conseguir fazer sozinho. Olhei para ele, demoradamente, e senti tantas saudades de conversar contigo.

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