25 janeiro, 2013

hoje não



acordo com a estranha sensação que já não és nada.
foste tudo. antes.
agora, aqui, és nada. no presente não existes. não tens cheiro nem cor.
podias aparecer na minha frente, raspar o teu corpo no meu, e não te reconheceria.
hoje não. já não.
no agora, és nada.
aqueço os braços trémulos ao sol,
são leves, porque não te trago em mim.
hoje não.
estou feliz assim.

14 janeiro, 2013

Quase





Já quase não penso em ti.
Absorve-me a rotina, os horários, o trabalho, as gentes.
Os dias passam por mim rápidos, cíclicos, sempre iguais. Arrastam o meu corpo letárgico, com a confiança de quem sabe exactamente o que quer e a destreza de quem pode. Ultrapassam-me, apressados.
Eu tento agarra-los, mas não saio do mesmo lugar.
Há nesta correria um misto de cansaço crónico e uma calma invulgar.
Não reajo. Não me debato. Pelo contrário, encontro um conforto etéreo, viciante, nesta fragilidade, que é não pensar. Será mesmo assim frágil a felicidade?

Ainda estou aqui. Tu sabes.
E tu? Tu estás em todos os lugares por onde passo. Do outro lado da linha, no fundo do parque por onde regresso, no mar revolto que contemplo ao anoitecer. Estás lá, mas eu já não penso em ti. Ou quase.


27 dezembro, 2012

lugar longínquo


Toda a desilusão é uma distância.
Um lugar longínquo onde te perco de visão.
Pelo caminho, as promessas, atropeladas, rastejam sangrentas até à berma da estrada.
Morrem sós, ridículas.
Por fim, já não te encontro.
Nem o cheiro da tua pele quando me abraçavas, ou vicio de ter-te sempre comigo, ou ainda o medo de perder-te para sempre. Nada. Já não te procuro. Nem te respondo. Como se as tuas palavras fossem ecos num acordar de uma anestesia.
Entre nós, não existe mais nada, para além de um silêncio triste.
No imenso vazio desta escuridão percebo, aliviada, que já não existes.
Hoje tu és distância.
És desilusão, um lugar longínquo.


09 dezembro, 2012

As it seems




«Well I knew what I didn't want to know; and I saw where I didn't want to go (...) Cause this life is as fragile as a dream, and nothing's ever really as it seems...As it seems...»

Encontrei esta musica perdida no meio de palavras fantasmas, e perdi-me por momentos na ilusão desta música. 


06 dezembro, 2012

Sentido


Não sei se algum dia procurei "o sentido". 
Gosto de pensar que o sentido não interessa para nada, que não me faz falta. 
Ainda que o caminho se revele torto e sinuoso, por vezes insólito e confuso. Não o questiono, apenas sigo o meu caminho, sozinha. Não gosto de planos, de muitas regras e explicações. Não gosto "do sentido" dogmático, como se não houvesse alternativa. É nesse meu mundo, isolado, de anarquia de sentido,  que habito frequentemente, admito, sem preocupações.

As Avenidas sem Sentido, são isso mesmo, espelho de vários caminhos possíveis, horizontes distintos e distantes, contudo, todos eles virgens,  livres e repletos de sonhos. Porque os sonhos não têm sentido. E o meu conto, provavelmente, também não.

Esta é a capa da colectânea de contos onde participo. O meu conto "Decisões imperfeitas" é uma história sobre decisões vividas num passado que não termina e ironicamente se repete.
Espero que gostem!