«Nunca é agora entre nós, é sempre até Domingo, até sexta, até terça, até ao próximo mês, até para o ano, mas evitamos cuidadosamente enfrentar-nos, temos medo uns dos outros, o medo do que sentimos uns pelos outros, medo de dizer Gosto de ti.» António Lobo Antunes
27 abril, 2013
quantos queres
gostava quando me fazias quantos queres. - eu sei, não eram quantos queres. eram figuras esquisitas, com um nome ainda mais estranho, que teimavas em dizer que eram flores, elefantes e sapos.
gostava quando me enviavas musicas novas que descobrias. aquelas que dizias serem a minha cara, as brutais, como lhes chamavas, as rap que eu detestava e as dos programas americanos que seguias.
gostava de falar dos filmes que víamos, viver as personagens dos livros, partilhar falas dos diálogos que líamos. gostava de ter-te perto, sem horas, exigências ou obrigações. Arrastar-te para os programas mais loucos e descabidos que inventava, e chorar a rir das confusões.
gostava da simplicidade das conversas banais e da espontaneidade das mais disparatadas. gostava dos teus exageros fatais, o teu humor inato e as tuas criancices mais básicas. acompanhar o teu mundo, diferente do meu, como se fizesse parte dele e ele me fosse permitido. gostava da companhia constante, da amizade sincera e do carinho com que me envolvias. gostava de estar contigo.
pudesse o coração ser de papel, ou a vida assim tão simples.
13 fevereiro, 2013
para aquecer-me
É sempre tempo de te abraçar,
dizer olá de sorriso composto, aprumado, acenar cordialmente adeus.
É sempre tempo das palavras usadas brotarem, repetidas,
num eco familiar,
permitindo um pronuncio de saudade do que não se foi,
do que não se teve e heroicamente se afogou num imenso oceano de culpas e medos.
Tempo de descobrir a razão das dúvidas, a génese do sofrimento.
Ou na incerteza, apenas acreditar cegamente no bloqueio dos sentimentos.
É sempre tempo de te abraçar, devagarinho,
invadir-te com palavras que escorregam desastradas do parapeito da janela.
Dizer-te que não sei o que espero, nem quando,
ou mesmo se esperar é o verbo conjugado na gramática dos meus sinais.
O imediato bonito e breve está gasto, confesso-te. Não me regenera o sangue coagulado nas lembranças.
Para aquecer-me é preciso tanto, é preciso mais.
08 fevereiro, 2013
Palavras suspensas
Sinto falta de conversar contigo.
Sinto falta de muita coisa entre nós, mas sobretudo de conversar contigo.
Sem regras. Sem pressas. Sem nenhum assunto específico. Libertar as palavras que trago encravadas na garganta, abafadas de incompreensão e carência. Abandonadas no escuro. Para encontrar nos teus sentidos um porto de abrigo, um lugar seguro. Enquanto falo, sem pensar, sobre as minhas verdades inteiras, os detalhes mais ridículos do mundo, tu abraças as palavras, como se fosse a tua almofada preferida, aquela que te devolve o sono mais tranquilo e profundo. Abraças e envolves as minhas palavras suspensas, em gestos meigos de carinho.
Podia mentir-te agora. Mas não consigo.
Sinto falta, tanta falta, de conversar contigo.
02 fevereiro, 2013
Felicidade

Ás vezes ela está ali mesmo ao nosso lado. Sentada no banco de jardim abandonada.
Segue-nos com os olhos, passa a mão pelo nosso cabelo e afaga-nos o rosto.
Está ali e é o aconchego do calor que sentimos, como se nos abraçasse. O sorriso cansado mas verdadeiro, a espera que tarda em ser alcançada. Está ali mesmo ao nosso lado, onde sempre esteve. Serena. Paciente.
De olhos vendados, tacteio. Procuro-a confusa, hesitante.
É então que surges novamente, empurras os meus medos, seguras no meu peito.
No limite do impossível: reinventas-me. Ocupas-me. Desejas-me.
Tu. És tu, a Felicidade que vejo.
26 janeiro, 2013
Vens?

“Eu não sei colocar pontos finais, eu não sei acabar com algo, eu não sei excluir alguém da minha vida.”- Clarice Lispector
25 janeiro, 2013
hoje não
acordo com a estranha sensação que já não és nada.
foste tudo. antes.
agora, aqui, és nada. no presente não existes. não tens cheiro nem cor.
podias aparecer na minha frente, raspar o teu corpo no meu, e não te reconheceria.
hoje não. já não.
no agora, és nada.
aqueço os braços trémulos ao sol,
são leves, porque não te trago em mim.
hoje não.
estou feliz assim.
14 janeiro, 2013
Quase

Já quase não penso em ti.
Absorve-me a rotina, os horários, o trabalho, as gentes.
Os dias passam por mim rápidos, cíclicos, sempre iguais. Arrastam o meu corpo letárgico, com a confiança de quem sabe exactamente o que quer e a destreza de quem pode. Ultrapassam-me, apressados.
Eu tento agarra-los, mas não saio do mesmo lugar.
Há nesta correria um misto de cansaço crónico e uma calma invulgar.
Não reajo. Não me debato. Pelo contrário, encontro um conforto etéreo, viciante, nesta fragilidade, que é não pensar. Será mesmo assim frágil a felicidade?
Ainda estou aqui. Tu sabes.
E tu? Tu estás em todos os lugares por onde passo. Do outro lado da linha, no fundo do parque por onde regresso, no mar revolto que contemplo ao anoitecer. Estás lá, mas eu já não penso em ti. Ou quase.
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