19 setembro, 2013

Talvez

 
Hoje a cama acordou vazia.
O cheiro da tua pele ainda se sentia, espalhado nos lençóis impecavelmente intactos. A almofada fria, rígida, reclamava toda uma noite despida. O calor do teu corpo, a forma como desarruma os lençóis e os amassa. 
A cama acordou vazia. Estranhamente vazia, sossegada. Como se um pesadelo tivesse invadido a sua alma. Sozinha. A memória arrastou-a de volta ao passado. 
De que sentia falta?
Talvez tudo. Talvez nada. 


12 setembro, 2013

Esta noite

Que me ame.
Sinto falta que me ame intensamente. Agarre-me com força sequioso. Rasgue-me a boca, a roupa, percorra todo o meu corpo embriagado e o queime de desejo. Aquele gemido contido junto ao meu pescoço, a respiração quente a escorrer pelo peito, enquanto as mãos deslizam frenéticas, insatisfeitas. Puxam-me. Insanas. Num compasso alternado, rápido e depois lento. Provocando arrepios e  deleite. A pele macia, quente, inunda-me, preenche-me completamente, sufoca-me num intenso calor. Quere-me, neste momento, desesperadamente, numa explosão de prazer, e amor. Abraça-me extenuado, beija-me e acaricia o meu rosto.
Que me ame, intensamente. É disso que sinto falta esta noite.

10 setembro, 2013

entre os dois

« a mais bela ponte construída no planeta é a distância entre um olhar e outro» Mário Prata


Por vezes é mesmo assim. O meu olhar perde-se no teu à procura de respostas a perguntas que não existem. Outras, perdes-te no meu, ziguezagueando indeciso, entre palavras sobre assunto nenhum. De que falamos quando os nossos olhares se chocam despidos?
Socorro-me de frases feitas, banais, entre um pestanejar nervoso que finges não reparar. E tudo o que digo sai desenfreado, tu perguntas, eu repondo. Quase sem pensar. Porque o que penso no meu íntimo, nunca digo. Fica sempre entalado entre um olá e um adeus, adiado para um depois, que nunca irá chegar.
Normalmente é assim entre nós dois. O tempo corre-nos nas veias e sabemos que é cruelmente veloz. Que perdemos sempre mais um pouco, desperdiçamos cada momento que os nossos olhares se cruzam perdidos um no outro. Prendem-se. Cegos. De medo? Pergunto em surdina.
"Somos opostos", dizes-me sem rodeios, como um raio de sol que me queima a retina. Opostos, repito confusa. Pensava-nos perto. Reparo desconfortável, entre nós, uma cerca opaca e rígida.



22 agosto, 2013

memória



«O que a memória ama, fica eterno.»
Dizia-te isto no outro dia.
Eternizamos momentos, sentimentos, sensações, que nos marcaram, por um instante  que seja, ou para toda uma vida. Eternizamos mesmo que já não tenham lugar no nosso corpo, espaço no nosso dia, ou já nem façam sentido. Mas na nossa memória eles perduram num amor que não se cansa, não se gasta, não envelhece. Um amor que dura, recorda sempre com saudade e nostalgia. Puro, ama desmesuradamente, sempre daquela forma, com aquele desejo, com a mesma intensidade. E recorremos a esses momentos, instantes que sejam, sempre e sempre. Voltamos a eles com um único objectivo: voltar a amar. Voltamos para viver novamente o que nos fez feliz. Voltamos por vezes até inconscientemente, damos por nós a regressar no tempo, no espaço, a lembrar os contornos do rosto, o brilho dos olhos, o cheiro da pele, o calor dos braços, o deslizar das mãos, o sabor da boca, a entrega dos lábios, da língua. Lembramos a voz rouca, grave, suave, as palavras que nos encheram o peito, ocupavam a cabeca que fervilhava euforia, palavras que significavam tudo, e eram mesmo tudo o que queríamos ouvir. 
Era isto que eu te queria explicar, entre palavras baralhadas, que brotavam confusas, ansiosas por ser ouvidas. 
Vivo diariamente memórias tuas que amo.
E essas memórias, nunca morrem. Nada as impede. Ninguém as rouba, esconde ou tira. E essa memória de instantes que loucamente amo, vou amar sempre, sempre com a intensidade que precisar, toda a minha vida. 



29 julho, 2013

apertado



Seria sempre assim entre nós dois.
Um espaço curto, quente, apertado. Onde o ar não passa e o tempo não mede.
Um lugar isolado do ruído das gentes, das frases repetidas, desprovidas de sentido.
Um espaço apenas nosso, tão nosso, que o cobrimos com os braços, com beijos. Apertamos com firmeza junto ao peito, num nó perfeito.
E ainda assim, escapa-nos por entre os dedos que o amam, num derramar lento, quase imperceptível, indolor. Perde-se. Aquele espaço pequenino que nos aproximava, e agora afasta.
- Para sempre? - questiono-me num monólogo recorrente.
Seria sempre assim entre nós dois.