03 março, 2014

Fantasma



É no silêncio que procuro as respostas intangíveis. Num deambular de pensamentos dispersos, confusos.
Encontro os teus olhos no escuro, a percorrerem-me lentamente. Sinto os contornos do teu corpo indefinido. Como se os teus braços surgissem por trás das minhas costas. São asas que me protegem, e embalam devagarinho. E ainda que sejam frágeis, essas asas de penas brancas, finas e macias, eu abrigo-me nelas o melhor que consigo.
É o teu respirar, sempre o teu respirar que te denuncia junto do meu ouvido. Quente. Calmo. Ritmado. Arrepia a minha pele fria e bloqueia os meus sentidos.
Fantasma dos meus medos mais íntimos, eterna e esquiva companhia. Procuro-te sempre desesperada, na ansiedade onde habito. 
Por um caminho sinuoso, numa margem estreita da vida, entre o silêncio que nos aproxima e a distância que nos obriga.

21 janeiro, 2014

pergunto



"Se eu te mostrar a minha luz interior podes abdicar de ser apenas uma fantasia e existir tangente ao meu corpo, pergunto."  valter hugo mãe

15 janeiro, 2014

última vez



É sempre a última vez entre nós dois.
A eterna despedida. A ausência anunciada numa morte lenta e previsível.
Perco-te. Cada vez que te tenho, perco-te.
Deixas-me, esvais-te entre os meus braços trémulos, diluis-te no meu olhar salgado de agonia.
Parece que te vejo sempre ao longe, naquela curva escura onde desapareces e perco-te de vista. Para sempre. Penso. Sinto. Não sei se estás vivo. Um ardor no estômago que queima infinitamente, resignada a uma vida que nunca fará parte da tua.
Todos os nossos momentos são, para sempre, os últimos. Todos os instantes, os sorrisos, os abraços, os beijos, os olhares e as palavras. Os últimos Como uma profecia declamada no alto de uma montanha, atirada ao oceano mais profundo.
Será talvez o ultimo, o nosso próximo momento. Irei vivê-lo com a intensidade de toda uma vida.

14 janeiro, 2014

pequenas doses


«Apago todas as mensagens. Menos as tuas. Guardo a tua voz em pequenas doses e, dia sim dia não, ouço-as todas de seguida. Sinto-me demasiado incapaz para falar contigo o que quer que seja. Não sei onde estás. Não quero saber. Tenho medo de saber mais do que sei.
Uma dor de cada vez basta.»

Pedro Paixão