24 abril, 2014

mais uma última vez





Era só voltar as costas e fingir que estava tudo bem.
«Só mais uma ultima vez», repetia baixinho, enquanto evitava enfrentar os olhos que procuravam, desesperados, agarrar os seus. Aqueles olhos mel. Carentes, meigos, dilacerantes.
Vira as costas, sempre primeiro. E finge, finge trémula que está tudo bem. Depois segue determinada em frente, como se mergulhasse num imenso mar. Asfixiada, regressa à superfície novamente. Por sobrevivência. Não aguenta o aperto no peito, a violenta falta de ar. Regressa e olha para trás, por instinto, ou sofreguidão. Vê-o de costas desamparado, os ombros tristes caídos, o andar lento e desengonçado, a forma desregrada como passa a mão pela cabeça enquanto se diluí  nos corpos vulgares da multidão.
Segue-o com os olhos baços, pelo infinito abstracto e escuro onde se esvai. Devagar. E pensa que talvez seja o seu abraço. A forma irregular de a abraçar. A curva do seu corpo quando a agarra e lhe rodeia a cintura. Acha que aquele abraço é a concha onde se encaixa, e é ali que julga pertencer. Podia alimentar-se daquele abraço. Naquele abraço, podia viver. 
Diz para si que foi a ultima vez, porque é sempre a ultima vez entre os dois. Escassos momentos confusos de euforia e pânico, de felicidade e angústia. De impossível paixão.
Depois? Depois, há sempre o adeus que os espera impaciente no cais de embarque, no terminal do comboio, numa qualquer bfurcação. O adeus cruel que viola os ponteiros de um tempo injusto que exige e desgasta, como um veneno tóxico, corrói lentamente, sem compaixão.
«É a ultima vez», diz baixinho. Num soluçar incontido, abafado. Perpetuando o instante na memória do tempo, junto dos momentos tão belos quanto efémeros que alimentam a alma, numa vida tão breve e escassa. Tão frágil. 

19 março, 2014

Nowhere


"(...) o rapaz acreditou que a companhia podia vir de dois mundos."
Valter Hugo Mãe em Filho de Mil Homens

03 março, 2014

Fantasma



É no silêncio que procuro as respostas intangíveis. Num deambular de pensamentos dispersos, confusos.
Encontro os teus olhos no escuro, a percorrerem-me lentamente. Sinto os contornos do teu corpo indefinido. Como se os teus braços surgissem por trás das minhas costas. São asas que me protegem, e embalam devagarinho. E ainda que sejam frágeis, essas asas de penas brancas, finas e macias, eu abrigo-me nelas o melhor que consigo.
É o teu respirar, sempre o teu respirar que te denuncia junto do meu ouvido. Quente. Calmo. Ritmado. Arrepia a minha pele fria e bloqueia os meus sentidos.
Fantasma dos meus medos mais íntimos, eterna e esquiva companhia. Procuro-te sempre desesperada, na ansiedade onde habito. 
Por um caminho sinuoso, numa margem estreita da vida, entre o silêncio que nos aproxima e a distância que nos obriga.