«Nunca é agora entre nós, é sempre até Domingo, até sexta, até terça, até ao próximo mês, até para o ano, mas evitamos cuidadosamente enfrentar-nos, temos medo uns dos outros, o medo do que sentimos uns pelos outros, medo de dizer Gosto de ti.» António Lobo Antunes
30 outubro, 2015
Berma
Digo para mim que é mesmo assim. Um passo de cada vez, devagar.Sem olhar para trás, ou para baixo.Seguir em frente, por instinto, sem hesitar. Mesmo de olhos cerrados pelo medo, sangrando ansiedade entre as escarpas do desconhecido. Porque só aos audazes é permitida a paixão de estar vivo. Essa inebriante loucura de viver um pouco mais além dos seus passos.
Digo que o que deslumbra traz quase sempre consigo a vertigem do salto. E para voar é preciso abandonar o corpo pesado, libertar a alma.
Como caminhar na berma do precipício. Ninguém disse que seria fácil.
Amar assusta. Por vezes mata.
20 outubro, 2015
É por ali
«É por ali» diziam-lhe.
Mas os pés tremiam invariavelmente na bifurcação.
Perdida de medo, mergulhada em dúvidas, hesitações.
Sempre que escolheu amar, o amor não a escolheu.
Como se a linha do destino estivesse traçada e, lá no fundo, à sua espera, sempre o vazio, imenso. Um abismo voraz, infinito - a escolha do coração.
Essa bússola errante, cega, demolidora. Arrasta para os caminhos mais distantes da razão. Lugares selvagens, paraísos sonhados, castelos erguidos no céu de algodão.
Só porque escolheu amar, não foi por ali.
Fechou os olhos, apertou os braços contra o peito, chorou e caminhou .
Mas o amor não a escolheu, esse amor, tão frágil, tão raro, nunca chegou.
Essa bússola errante, cega, demolidora. Arrasta para os caminhos mais distantes da razão. Lugares selvagens, paraísos sonhados, castelos erguidos no céu de algodão.
Só porque escolheu amar, não foi por ali.
Fechou os olhos, apertou os braços contra o peito, chorou e caminhou .
Mas o amor não a escolheu, esse amor, tão frágil, tão raro, nunca chegou.
16 outubro, 2015
Príncipe
Príncipe:
Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu batia à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso
tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito tudo era apenas
lábios pálpebras intumescências
cobrindo o corpo de flutuantes volteios
de palpitações trémulas adejando pelo rosto.
Beijava os teus olhos por dentro
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão sobre o meu pensamento
corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.
São mil e umas
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me.»
Ana Hatherly, in "Um calculador de Improbabilidades"
Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu batia à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso
tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito tudo era apenas
lábios pálpebras intumescências
cobrindo o corpo de flutuantes volteios
de palpitações trémulas adejando pelo rosto.
Beijava os teus olhos por dentro
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão sobre o meu pensamento
corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.
São mil e umas
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me.»
Ana Hatherly, in "Um calculador de Improbabilidades"
Caminhos

«Era uma vez uma pessoa que procurava a sabedoria. Tinham-lhe dito que para a atingir tinha sempre que aceitar e recusar ao mesmo tempo tudo o que lhe fosse oferecido, dito ou mostrado. Quando perguntava por onde era o melhor caminho e lhe diziam “é por ali” ela devia seguir imediatamente nesse sentido e depois no sentido contrário. Tendo assim percorrido todas as direcções indicadas e as não indicadas, sem mais caminhos a percorrer, sentou-se no chão e começou a chorar. Sem saber, tinha chegado.»
Ana Hatherly, in «463 Tisanas», 2006.
03 dezembro, 2014
Falta de ar
Costumava falar do encontro das almas.
Enquanto procurava na mudez do tempo um vestígio de mim.Perdido no meio do nada, no centro do corpo,
enterrada no peito, a dor exacta, acutilante
- A falta de ti.
Lembrava-me dos braços em redor, envoltos de
riso. Os lábios quentes, ousados. Intensos. Pele arrepiada pelo sussurro que
despe lentamente, sem pudor.
Entranha-se na carne, como um veneno corrosivo, percorre a corrente sanguínea - a tua voz, calma, sedante.
Entranha-se na carne, como um veneno corrosivo, percorre a corrente sanguínea - a tua voz, calma, sedante.
Acreditava no encontro das almas. Inesperado,
insólito. Que rasgava as probabilidades mais sábias. O verdadeiro elogio dos
ignorantes - o encontro perfeito, de quem não procura, e se encontra sem
perceber.
Enquanto os olhos ardem na distância,
acompanhando a trepidação das turbinas que sacodem o corpo assustado, inerte de
acção.
É quando te digo que as almas são errantes.
Cegas, tacteiam no escuro, desesperadas. Correm sem direcção, sem medo, sem
pensar. Carentes, alimentam-se de cada fôlego de vida. Sobrevivem, numa
constante falta de ar.
12 novembro, 2014
Para Longe
Perguntas-me para onde.
Mas a terra não gira e as horas não passam.
Talvez seja o tempo a esquecer-se de nós cá dentro, enquanto a noite arrefece os corpos vazios de ilusão.
Perguntas-me - Para onde?
E eu olho a estrada infinita à nossa frente, o céu imenso que a cerca no horizonte.
- Isso importa?
Não respondes.
Ainda evitas cuidadosamente enfrentar os meus olhos impacientes, que procuram desesperados uma solução.
Talvez o vento nos arraste distante, sem rumo, e num esgar de sorte fiquemos perto, embriagados, um do outro.
Sei que me contarás as histórias mais incríveis das viagens que fizemos e o sono chegará de mansinho, entre risos
incontidos e o calor dos braços com que me proteges.
- Para onde? Perguntas.
- Para longe.
24 abril, 2014
mais uma última vez
Era só voltar as costas e fingir que estava tudo bem.
«Só mais uma ultima vez», repetia baixinho, enquanto evitava enfrentar os olhos que procuravam, desesperados, agarrar os seus. Aqueles olhos mel. Carentes, meigos, dilacerantes.
«Só mais uma ultima vez», repetia baixinho, enquanto evitava enfrentar os olhos que procuravam, desesperados, agarrar os seus. Aqueles olhos mel. Carentes, meigos, dilacerantes.
Vira as costas, sempre primeiro. E finge, finge trémula que está tudo bem. Depois segue determinada em frente, como se mergulhasse num imenso mar. Asfixiada, regressa à superfície novamente. Por sobrevivência. Não aguenta o aperto no peito, a violenta falta de ar. Regressa e olha para trás, por instinto, ou sofreguidão. Vê-o de costas desamparado, os ombros tristes caídos, o andar lento e desengonçado, a forma desregrada como passa a mão pela cabeça enquanto se diluí nos corpos vulgares da multidão.
Segue-o com os olhos baços, pelo infinito abstracto e escuro onde se esvai. Devagar. E pensa que talvez seja o seu abraço. A forma irregular de a abraçar. A curva do seu corpo quando a agarra e lhe rodeia a cintura. Acha que aquele abraço é a concha onde se encaixa, e é ali que julga pertencer. Podia alimentar-se daquele abraço. Naquele abraço, podia viver.
Diz para si que foi a ultima vez, porque é sempre a ultima vez entre os dois. Escassos momentos confusos de euforia e pânico, de felicidade e angústia. De impossível paixão.
Depois? Depois, há sempre o adeus que os espera impaciente no cais de embarque, no terminal do comboio, numa qualquer bfurcação. O adeus cruel que viola os ponteiros de um tempo injusto que exige e desgasta, como um veneno tóxico, corrói lentamente, sem compaixão.
«É a ultima vez», diz baixinho. Num soluçar incontido, abafado. Perpetuando o instante na memória do tempo, junto dos momentos tão belos quanto efémeros que alimentam a alma, numa vida tão breve e escassa. Tão frágil.
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