11 maio, 2016

Destino

Sangro todos os dias a saudade que tenho
E até nos dias em que te vejo, sangro. Mais ainda, sangro a pele que vejo e não toco.
Arde-me a boca, secam-me os lábios que não te beijam. E os olhos incham um vermelho suspeito.
Rasgam-me o peito as memórias dos sonhos que já não tenho, a ilusão do encanto.
E cada dia é mais um dia vagabundo na sombra do que não aconteceu.
Entre os escombros vazios, a ausência de sorte. Porque o amor é um jogo vida ou morte. E quis eu amar-te assim perdidamente, ingénua sem rodeios. Bastava-me tu, e eu. Nós era um lugar perfeito. Destino que busquei a vida toda, deserto de quem nunca chegou.



06 maio, 2016

Se tu me amas


«Se tu me amas, ama-me baixinho.
Não o grites de cima dos telhados,deixa em paz os passarinhos.
Se me queres,enfim,
tem de ser bem devagarinho, amada,
que a vida é breve,e o amor mais breve ainda.» Mário Quintana

03 novembro, 2015

Bolha



- Posso andar assim por um tempo?
Sem a pressa da vida empurrar-me o corpo e, num turbilhão, arrasta-lo pelas bermas do passeio. Sem o medo constante de errar, a angústia da escolha, a pressão sufocante de decidir. Sem as dúvidas a rasgarem a pele, as perguntas vãs a queimarem tudo por dentro.
- Posso andar assim?
Sem me notarem. Invisível, transparente.
Até que o anoitecer devolva a sombra da paz, o néctar dormente dos deuses.
- Só por um pouco.
Libertar os passos do calendário do tempo, da voz ritmada dos dias, e permitir-me a uma melodia suave, num embalar íntimo, só meu.
Olho à volta e vejo metade da minha vida, a passar por mim, numa locomotiva a vapor. Um fumo imenso em redor, ofusca a visão de tonturas, ansiedade e medo. É assim a vida num carris apertado de ferro baço, com o percurso delineado, minutos contados para chegar a lugar nenhum. Percebo agora, que não levo nada. Estou sozinha e despida de quem fui, de tudo que tive, e de quem sou.
Não me venham falar do mundo à volta, lá fora. Conheço-o bem demais para saber que agora, neste momento, preciso ficar assim. Na minha bolha. Por um tempo.




30 outubro, 2015

Berma



Digo para mim que é mesmo assim. Um passo de cada vez, devagar.Sem olhar para trás, ou para baixo.Seguir em frente,  por instinto, sem hesitar. Mesmo de olhos cerrados pelo medo, sangrando ansiedade entre as escarpas do desconhecido. Porque só aos audazes é permitida a paixão de estar vivo. Essa inebriante loucura de viver  um pouco mais além dos seus passos.
Digo que o que deslumbra traz quase sempre consigo a vertigem do salto. E para voar é preciso abandonar o corpo pesado, libertar a alma.
Como caminhar na berma do precipício. Ninguém disse que seria fácil.
Amar assusta. Por vezes mata.

20 outubro, 2015

É por ali



«É por ali» diziam-lhe.
Mas os pés tremiam invariavelmente na bifurcação.
Perdida de medo,  mergulhada em dúvidas, hesitações.
Sempre que escolheu amar, o amor não a escolheu.
Como se a linha do destino estivesse traçada e, lá no fundo, à sua espera, sempre o vazio, imenso. Um abismo voraz,  infinito - a escolha do coração.
Essa bússola errante, cega, demolidora. Arrasta para os caminhos mais distantes da razão. Lugares selvagens, paraísos sonhados, castelos erguidos no céu de algodão.
Só porque escolheu amar, não foi por ali.
Fechou os olhos, apertou os braços contra o peito, chorou e caminhou .
Mas o amor não a escolheu, esse amor, tão frágil, tão raro, nunca chegou.