22 agosto, 2013

memória



«O que a memória ama, fica eterno.»
Dizia-te isto no outro dia.
Eternizamos momentos, sentimentos, sensações, que nos marcaram, por um instante  que seja, ou para toda uma vida. Eternizamos mesmo que já não tenham lugar no nosso corpo, espaço no nosso dia, ou já nem façam sentido. Mas na nossa memória eles perduram num amor que não se cansa, não se gasta, não envelhece. Um amor que dura, recorda sempre com saudade e nostalgia. Puro, ama desmesuradamente, sempre daquela forma, com aquele desejo, com a mesma intensidade. E recorremos a esses momentos, instantes que sejam, sempre e sempre. Voltamos a eles com um único objectivo: voltar a amar. Voltamos para viver novamente o que nos fez feliz. Voltamos por vezes até inconscientemente, damos por nós a regressar no tempo, no espaço, a lembrar os contornos do rosto, o brilho dos olhos, o cheiro da pele, o calor dos braços, o deslizar das mãos, o sabor da boca, a entrega dos lábios, da língua. Lembramos a voz rouca, grave, suave, as palavras que nos encheram o peito, ocupavam a cabeca que fervilhava euforia, palavras que significavam tudo, e eram mesmo tudo o que queríamos ouvir. 
Era isto que eu te queria explicar, entre palavras baralhadas, que brotavam confusas, ansiosas por ser ouvidas. 
Vivo diariamente memórias tuas que amo.
E essas memórias, nunca morrem. Nada as impede. Ninguém as rouba, esconde ou tira. E essa memória de instantes que loucamente amo, vou amar sempre, sempre com a intensidade que precisar, toda a minha vida. 



29 julho, 2013

apertado



Seria sempre assim entre nós dois.
Um espaço curto, quente, apertado. Onde o ar não passa e o tempo não mede.
Um lugar isolado do ruído das gentes, das frases repetidas, desprovidas de sentido.
Um espaço apenas nosso, tão nosso, que o cobrimos com os braços, com beijos. Apertamos com firmeza junto ao peito, num nó perfeito.
E ainda assim, escapa-nos por entre os dedos que o amam, num derramar lento, quase imperceptível, indolor. Perde-se. Aquele espaço pequenino que nos aproximava, e agora afasta.
- Para sempre? - questiono-me num monólogo recorrente.
Seria sempre assim entre nós dois.



17 julho, 2013

horizonte


As palavras escorregam, teimosas. Espalham-se pelos grãos de areia quentes.
Errantes. Perdem-se. Enterram-se de orgulho.
Não há um abraço, um beijo, um olhar que reclame vida.
És agora um sonho abstracto. Intangível.
Incorpóreo nos monólogos que pulsam desenfreados na garganta, a cada instante. Converso contigo num silêncio escuro, escondido. Não sei se me escutas, alguma vez que seja, se compreendes tudo o que digo.
Trago-te a mim nos momentos dilacerantes de abandono, do mais profundo vazio. Para que me resgates da rotina asfixiante e me seduzas para o teu mundo de fantasia. E sonho, sonho bastante, com o momento, o breve instante que, por acidente, nos aproxima. Fugaz, inesperado. Fascinante. Em que me abrigo no teu peito enquanto afagas o meu rosto e me cantas ao ouvido.


03 maio, 2013

histórias inacabadas




Ao final da tarde tu chegaste. Como sempre fazias, de mansinho. Sussurraste as palavras mágicas, enquanto envolvias suavemente as minhas costas com o teu corpo firme. O calor invadia-me no silêncio dos teus braços, e a tarde escurecia na tua respiração rente ao meu pescoço. Ritmada.Inquietante. Pudesse eu amar-te ali naquele instante, derrubar-te na areia e satisfazer todas as minhas fantasias. - Pudesse eu amar-te, novamente. 
Havia um pouco de mim nas palavras perdidas. Talvez eu tivesse algo mais para te dizer no intervalo rochoso onde nos separámos. E perdemos. Por acidente? Para sempre? Não há dúvidas que durem sempre, ou decisões perfeitas e tranquilas. 
Pressentia-te. Estavas ali, naquela tarde inacabada. Precisava de acreditar verdadeiramente na tua presença, mas não conseguia. O mar batia encrespado nas rochas e o meu coração batia também acelerado, enfurecido. Pensei que o segurasses enquanto deslizavas a mão pelo meu peito, pensei que o acalmasses e o curasses de uma dor antiga. Novamente as palavras mágicas entravam nos meus ouvidos pulsando toda a corrente sanguínea. Arrepiavam-me. - Pudesse eu amar-te ali mesmo naquele instante, apoderar-me sofregamente da tua boca, invadir-te com a minha língua. Percorrer a tua pele embriagada no aroma da maresia. Olhar-te nos olhos fixamente, procurar neles o brilho com que me encadeavas, recuperar a timidez para onde fugia. 
- Pudesse eu amar-te ali, novamente, o mar ainda dormia na areia, as rochas seriam uma cama de veludo.   

27 abril, 2013

quantos queres



gostava quando me fazias quantos queres. - eu sei, não eram quantos queres. eram figuras esquisitas, com um nome ainda mais estranho, que teimavas em dizer que eram flores, elefantes e sapos.
gostava quando me enviavas musicas novas que descobrias. aquelas que dizias serem a minha cara, as brutais, como lhes chamavas, as rap que eu detestava e as dos programas americanos que seguias.
gostava de falar dos filmes que víamos, viver as personagens dos livros, partilhar falas dos diálogos que líamos. gostava de ter-te perto, sem horas, exigências ou obrigações. Arrastar-te para os programas mais loucos e descabidos que inventava, e chorar a rir das confusões.
gostava da simplicidade das conversas banais e da espontaneidade das mais disparatadas. gostava dos teus exageros fatais, o teu humor inato e as tuas criancices mais básicas. acompanhar o teu mundo, diferente do meu, como se fizesse parte dele e ele me fosse permitido.  gostava da companhia constante, da amizade sincera e do carinho com que me envolvias. gostava de estar contigo.
pudesse o coração ser de papel, ou a vida assim tão simples.