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30 outubro, 2015

Berma



Digo para mim que é mesmo assim. Um passo de cada vez, devagar.Sem olhar para trás, ou para baixo.Seguir em frente,  por instinto, sem hesitar. Mesmo de olhos cerrados pelo medo, sangrando ansiedade entre as escarpas do desconhecido. Porque só aos audazes é permitida a paixão de estar vivo. Essa inebriante loucura de viver  um pouco mais além dos seus passos.
Digo que o que deslumbra traz quase sempre consigo a vertigem do salto. E para voar é preciso abandonar o corpo pesado, libertar a alma.
Como caminhar na berma do precipício. Ninguém disse que seria fácil.
Amar assusta. Por vezes mata.

11 agosto, 2011

Ensaio sobre a Alma




Cada segundo em que estou acordada, em qualquer momento do meu estado consciente, procuro por ela.
Não é propriamente algo que se pode esconder numa gaveta fechada, por baixo de um colchão antigo ou em alguma caixa velha arrumada no fundo de um armário.

Na verdade ela é imprevisível, incorrigível e vadia. Esgueira-se por uma nesga da porta ou pela fresta da janela e corre rápido, mais do que os pés humanos possam correr para a alcançar.
Podia procura-la nas montanhas mais altas, nas florestas mais densas, nos lugares mais perigosos e longínquos, que não a iria encontrar. Porque a sua natureza é rebelde, fugidia e não se deixa capturar. Nem por mim, o seu próprio corpo, que lhe deu origem e a fez crescer, também aquele que a perdeu ou letargicamente a deixou partir.

Exausta de uma busca inglória, do vazio constante por preencher dentro de mim, não tive alternativa senão lançar-me na boca do lobo para a reaver.

Chamavam-lhe “Coleccionador de Almas” e reza a lenda que já conquistou as Almas das mais belas criaturas humanas e até divinas. Diz-se que algumas das Almas por ele conquistadas ficaram para sempre com ele, outras ele entregou-as ao seu destino.
Quando o vi naquela noite achei-o estranhamente familiar. Apesar de já ter ouvido falar dele, não lhe conhecia o rosto. E ainda não o conheço na totalidade, pois ele esconde-o por detrás de uma máscara que lhe tapa os olhos e o nariz, deixando apenas a boca a descoberto. Uns lábios grossos, carnudos, mas pouco expressivos. “Talvez seja para proteger a sua própria alma, assim como escudo” pensei enquanto me aproximava devagarinho. Um espanta-espíritos abanava ao ritmo do vento que entrava por uma pequena janela, o aroma de incenso queimado inundava aquele cubículo escuro iluminado por velas. Ele estava sentado no chão e olhava na minha direcção, um olhar que eu não via, apenas sentia.
- Roubaram-te a Alma – disse numa voz grave e calma.
Limitei-me a acenar e, pela primeira vez, escancarei-me com uma hipótese plausível para ela não regressar. Talvez assim como havia um Coleccionador de Almas, houvesse também um Ladrão de Almas, um Traficante de Almas, e por aí em diante. Um mundo horrendo de criminalidade por desvendar.
De repente um frio desconfortável percorreu-me o corpo “e se a minha Alma tivesse sido vendida? Oferecida a alguém que a espavoneie como sua, sim, se ela agora pertencesse a outra pessoa?”. Seria possível alguém, para além do Coleccionador de Almas, um feiticeiro louco, ter mais do que uma alma? E o que faria com ela então? Estaria a minha aprisionada, doente, despedaçada? O sofrimento assombrava o meu rosto quando ele interrompeu os meus pensamentos.
- Mas ela está feliz, mesmo que apartada do seu corpo.
Feliz. Agora ele referia aquela palavrinha fantástica, que supostamente diz tudo e, na boa verdade, não diz nada.
- Feliz como? – Perguntei já irritada, imaginando um corpo aos pulos de alegria com a minha Alma ao colo, a correr com ela pela praia, sentados num pontão a pescar…
- Feliz, quero dizer, completa – esclareceu – E agora só tem duas hipóteses: ou a deixa viver feliz como está mas longe do seu corpo, ou eu posso capturá-la e traze-la de volta para a aprisionar ao seu corpo, aquele que lhe deu origem.
- Mas isso é uma escolha? – Semicerrava agora os olhos incrédula – Ficar com o meu corpo vazio de Alma ou ter a minha Alma aprisionada e infeliz.
- Garantidamente não é uma escolha fácil, mas as grandes escolhas são sempre assim…Difíceis – tamborilava agora os dedos no chão de madeira – Com a primeira hipótese dá-lhe a liberdade de ser feliz e poderá sempre voltar se essa felicidade acabar.

Arrastei o meu corpo vazio, ainda mais vazio agora esburacado por uma súbita tristeza, para fora do cubículo escuro. A noite, de repente, pareceu-me mais clara do que o normal, ou seriam as estrelas mais brilhantes, ou a lua cheia lá no alto. Tudo era definitivamente mais claro cá fora.

Respirei fundo, como para aceitar conscientemente a decisão tomada.
Acreditava que qualquer Alma devia ser livre, ainda que para isso implicasse distanciar-se do seu próprio corpo. De alguma forma fazia sentido a busca pela tão proclamada felicidade, e se ela estava noutro lugar, que assim fosse. Estaria ela a dormir espreguiçada no ombro quente de alguém que a amasse? Consolada na sua respiração, abrigada rente ao seu sorriso? A ideia agradava-me, por isso continuei a caminhar confiante, indiferente ao meu corpo abandonado e vazio. 
Sabia agora que, a qualquer hora, ela podia voltar, ou quem sabe, até mesmo outra Alma podia conquistar o meu corpo, sem qualquer compromisso.