06 janeiro, 2012

Transparente



É tão fácil dizer “amo-te” que torna banal o amor. Não aquele entre amigos e família, que esse não interessa à mais eloquente poesia. O outro. O romântico e louco, que os poetas recitam sobre dois seres que se entregam de corpo e alma para todo o sempre. Como se o “sempre” fosse algo atingível.
Quando oiço essa palavrinha arranhada digo para mim que esse Amor é estúpido. Depois reconsidero, não é o amor, são as pessoas. Aquelas que mais proclamam tamanha loucura. Há quem ame tudo, a toda a hora, de boca cheia e peito inchado de orgulho. Desde a formiga que passa em carreiro pela cozinha, até a cozinheira do restaurante onde almoça todos os dias. E, olhando bem nos olhos baços dessas pessoas, apenas sabem que amar é um verbo e que só o conjugam na primeira pessoa.

[Há um homem que vai de bicicleta comigo todos os dias no comboio. Conheço há anos, o seu colete florescente e cada traço do seu rosto enfiado num capacete. Já lhe perguntei as horas apenas para ouvir a sua voz. Gosto de o ver pela manhã, contempla-lo a sair no Cais do Sodré de bicicleta na mão. Era capaz de o observar um dia inteiro, tomar um café com ele e perguntar-lhe o que quer da vida neste mundo dormente. Gosto estupidamente dele. Não o amo.]

Foram poucas as vezes que disse “amo-te”. Porque foram também poucas as vezes que realmente amei alguém, mas não lamento. Quando amei fui estupidamente verdadeira. Não duvido que quando disse “amo-te” por palavras e gestos, saiu límpido dentro de mim, como a certeza mais pura. Talvez tenha amado pouca gente, quase ninguém, mas quando o fiz, não gastei a palavra em vão. Fui autêntica, transparente.
Não respiro na opacidade da mentira.



6 comentários:

T. disse...

O verdadeiro Amor, é bipolar...ou nos enche o peito de ar, ou nos parte em bocados. O que está no meio é um misto de sentimentos.

Ninguém Ama por aí, descontroladamente! Há todo um caminho a percorrer.

Gostei muito...beijos

Natacha disse...

Eu, pelo contrário, disse-o e continuo a dizê-lo muitas vezes mas a muito pouca gente que tenha passado na minha vida... E quanto mais o digo, ou melhor, se mais o expresso, então é porque de banal não tem nada e cada vez que o digo é porque é cada vez maior, mais intenso ;)

Esta é mesmo aquela palavra que só me saí da alma, e não da boca :)

Estupidamente verdadeira! Acima de tudo, mai nada!

Beijo grande

Moni Abrao disse...

Concordo com as suas palavras, as pessoas hoje em dia dizem que amam com uma facilidade absurda quando na verdade amam apenas a si mesmo!
Acredito que o amor é um sentimento lindo, repleto de sentidos que não conseguimos expressar com exatidão usando palavras!
Adorei o texto
Estou seguindo o blog

http://moniabrao.blogspot.com/
beijos

Closet disse...

T. também acho que ninguém ama assim descontroladamente "por aí"! Este texto era um bocadinho irónico, quase sarcástico, assim um espécie de ode anti-falsos-amores!! Mas bipolar acho que é mais a paixão, aquele bicho neurótico ;) beijo grande

Closet disse...

Sabes Natacha, hoje fui com o senhor da bicicleta e estive quase para lhe perguntar o que achava sobre o Amor... mas ele nem me mostra os dentes, acho que nem sequer gosta de mim (poor me).Como não hei-de ser assim??!! Este post era um pouco irónico mesmo, mas claro que tem um fundo de verdade,"amo-te" é uma palavra que não me sai com facilidade sem ser nas minhas historietas, Just me :)

Closet disse...

é verdade Moni, há por aí muito Amor literato egocêntrico e, vendo bem, as palavras podem significar tão pouco se não forem acompanhadas dos gestos certos na altura certa! Obrigada pela visita e ... estou te seguindo, viu?! beijo