05 julho, 2011

Esquina qualquer


Embateram numa esquina qualquer, numa noite de chuva fria.
Estilhaçaram-se mutuamente nesse dia, num choque abrupto, frontal. 
Primeiro com a força do corpo, depois a violência do olhar. Confusos, respiraram rente à boca. Ofegantes. Atraídos por instantes num apetite voraz.
Baixam-se, para apanhar as folhas que ela deixou cair no chão. E deixaram-se cair também, descontrolados, nos braços um do outro. Primeiro, no piso empedrado da calçada, depois contra a parede suja e gelada. Por um tempo que o relógio não sabe controlar. Indeterminado, carnal.
Ela mordeu os lábios sequiosos. Sôfrego, ele raspou os seus, pelo pescoço dela. E os olhos voltaram a cruzar-se. Fixaram-se, demoradamente. Enfeitiçados. Os braços serpentearam enredados, as mãos despiram prazer. Ali mesmo, extasiados, numa esquina qualquer, amaram-se sem se conhecer.
As bocas mudas, entregaram-se esfomeadas. Uma da outra, em busca de alimento. Desejaram-se despojadas de palavras. Apenas o contacto quente, o tronco dele molhado, contra o peito dela acelerado. Estranhos de um passado inexistente. Quem foram não interessava para nada, o futuro era-lhes indiferente. Entregaram-se impunemente. Não sabem quanto tempo depois largaram os corpos suados, viciados numa fome incerta.
Dobraram a esquina e separados.
A noite era fria. A rua estava deserta.

4 comentários:

viajanteintemporal disse...

Sabes que gosto muito do que escreves.
Fico sempre a aguardar o teu livro.
Beijinhos

ps: eu disse...

Sim, eu sei e é recíproco! Quanto ao livro é que já não sei, mas isso importa??
beijinhos!

Ivete disse...

Forte! E muito bonito! :))

ps: eu disse...

Obrigada Ivete! Um beijinho!