01 julho, 2011

Fresta



Numa sexta-feira de Janeiro, Sofia procurou um álbum antigo de Cat Stevens. Colocou “Wild World” a tocar baixinho, como um calmante, acompanhado de chá de tília. Preparava-se para ler espreguiçada no seu velho sofá de veludo castanho, junto à lareira, quando a campainha estridente irrompeu do escuro do corredor. Pensou que fosse Rita, como era seu hábito esquecer-se das chaves de casa. Levantou-se, a arrastar o corpo e a resmungar sozinha, abrindo a porta de rompante sem perguntar.
Do outro lado, um vulto alto abalroou inesperadamente a porta, como se lhe fosse saquear a alma. Por instinto, tentou fechá-la de imediato, assustada. Debateu-se contra o pé dele que a impedia de fechar o trinco, empurrando-a com o seu corpo.
- Olá! – Soprou por entre a nesga da porta - Só vim dizer “Olá”
Renitente, Sofia cedeu abrir a porta devagar. Levantava o sobrolho, mordia os lábios trémulos e abanava a cabeça confusa. Engolia em seco, e os seus olhos azuis, outrora transparentes, estavam agora embaciados em lágrimas que emergiam descontroladas.
- Olá? ... Olá? – Pestanejava repetidamente lutando por travar as lágrimas mais teimosas.
- Olá… - Gaguejou olhando-a de cima a baixo deslumbrado - Sim, acho que as conversas começam assim – E avançou na sua direcção inclinando-se para a beijar na cara. 
Sofia afastou-o com as mãos bruscamente.
- Nem tentes dar-me um beijo na cara… - Gritou voltando-lhe as costas – nem sequer penses nisso, ouviste? Um beijo na cara? …- Caminhava irritada em direcção à porta.
Pedro agarrou-se desamparado ao corrimão de pedra fria, quase caindo pelas escadas. Logo que conseguiu equilibrar-se, puxou-lhe o braço obrigando-a a voltar-se para trás.
- Espera! Nada de beijos. Tudo bem… – Um sorriso rasgava-se nos seus lábios, esforçados por manter um ar sério - Só “olá”, está bem assim?
(...)
Há instantes em que o tempo pára como por magia, como se abrisse uma fresta onde espreitamos e, admirados, vemos o que até então era invisível. Eles sentiram estar a olhar pela mesma fresta de tempo. E num monólogo interior questionavam-se se deviam parar.
(...)
Pisar a linha ténue, quase invisível, entre voltar atrás e começar de novo. E é nessa linha que pode estar o ponto crítico da vida. Recomeçar não significa voltar atrás. E por vezes voltar atrás não significa que se comece de novo, há uma probabilidade imensa de repetir os mesmos erros, as mesmas tentações. 

de uma espécie de conto meu "Fresta no Tempo"

2 comentários:

Natacha disse...

... e nisso eu sou perita...

Um beijo grande!

ps: eu disse...

... Guilty!! Beijinhoss